Segunda-feira, Novembro 23, 2009

(machine)

A máquina de dizer sim. As aberturas fechadas. A pessoa que encolhia. A máquina de engolir sapos. A senhorita contradição. O homem que era terça-feira. A máquina de generalizar emoções. John One Track Mind. A menina que fazia melancia sem caroço. As coisas que não tinham nome. O sujeito encontrado. O desfibrilador de medos. A luz no fim do fundo. A filha da mobilização. O penúltimo recluso recusado. A máquina de pensar errado. A continuação do fim do mundo. O personagem sem chapéu. A pervertida que era pura. O empreendedor que copiava versos. A fábrica que não fabricava nada. A máquina de fazer panquecas de carne. A empresa reparadora de falsificações. As falsificações reparadas. A máquina de escrever bulas de remédio. O infeliz dialético. A leitora que cultivava generalizações. A máquina de dizer fim.
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A fotografia é de Bob Renno.
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Sábado, Novembro 21, 2009

(árvores)

Há cerca de 61 árvores por pessoa. Há mais galinhas na terra do que pessoas. Galinhas e pessoas sobem em árvores. Árvores caem em pessoas. Galinhas, pessoas e árvores morrem. Crianças com quatro anos fazem cerca de 400 perguntas por dia. Quando pequenas, as árvores são chamadas de mudas. Elvis era o nome do gato de John Lennon. Elvis sobe em árvores. Um cubo mágico tem 43250032744489856000 combinações possíveis. A cadeira elétrica foi inventada por um dentista. Galinhas não têm dentes. Serrotes têm dentes. Há mais galinhas na terra do que serrotes. Serrotes cortam árvores. Mágicos usam serrotes para cortarem pessoas. Elvis tinha medo de galinhas. John Lennon já fez cerca de 400 perguntas por dia e teve uma banda com nome de inseto. Cigarras cantam, mas não montam uma banda porque não têm cérebro.
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A fotografia é de David Montes.
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Quarta-feira, Novembro 18, 2009

(medo)

Dentistas e pessoas têm medo de cadeira elétrica. Pessoas têm medo de ir ao dentista. Estrelas do mar não têm medo nem dentes. Algumas pessoas têm medo de elefante. Elefantes causam medo e incomodam muita gente. Elefantes têm medo de formiga. David Bowie é o nome de uma espécie de aranha. Não existem aranhas em Marte. É provável que algum dentista tenha medo de aranha. Andy Warhol tinha medo de morrer. Um cigarro tem cinco minutos de vida. Algumas baleias cometem suicídio. Pessoas matam baleias e pessoas. Pássaros azuis não conseguem ver a cor azul. Pássaros não têm medo de altura. Crianças crescem mais rápido durante a primavera. Crianças com quatro anos fazem cerca de 400 perguntas por dia. A palavra Love aparece 613 vezes nas músicas de uma banda que tinha nome de inseto. É curioso que pessoas tenham medo de sentar em cadeiras. A cadeira elétrica foi inventada por um dentista. É provável que alguém sentado numa cadeira elétrica se lembre de uma pergunta que fez quando tinha quatro anos. É provável que a pergunta tenha sido sobre estrelas do mar.
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A fotografia é de Lara Alegre.
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Terça-feira, Novembro 17, 2009

(facts)

A cadeira elétrica foi inventada por um dentista. Leonardo era o primeiro nome do inventor da tesoura. Estrelas do mar não tem cérebro, logo não inventariam nem uma cadeira elétrica nem uma tesoura. Dentistas e pessoas têm cérebro. Elvis era o nome do gato de John Lennon. John Lennon tocava numa banda que tinha nome de inseto. A palavra Love aparece 613 vezes nas músicas da banda com nome de inseto. Uma pessoa não consegue espirrar com os olhos fechados. Alguns peixes nunca fecham os olhos. Golfinhos dormem com um olho aberto. Gatos, insetos, peixes e golfinhos são animais. Bando é nome dado ao ajuntamento de pessoas ou de animais. Porcos não conseguem olhar para o céu. Um cigarro tem cinco minutos de vida. Algumas baleias cometem suicídio. Algumas pessoas cometem suicídios. Beijar por um minuto pode queimar até 26 calorias. Einstein nunca lembrava seu número de telefone. E Shakespeare era disléxico.
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A fotografia é de Jens Kaesemann.
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(rabbits)

Eu já tive um coelho quando era mais novo. Eu gostava muito dele, de verdade.
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Segunda-feira, Novembro 16, 2009

(cena_três)

Eles se encontram outra vez. Diante de uma fotografia de Man Ray. Fotografia que faz parte de uma exposição do Man Ray. Portanto, acontece num museu. A cena poderia ser a primeira ou a última de um filme. Não há falas, apenas pensamentos. Há um terceiro personagem que passa resmungando. Mas que não atrapalha em nada.
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Ele: (Eu poderia falar alguma coisa)
Ela: (Acho que vou falar alguma coisa)
Ele: (Não, depois ela vai ficar com raiva)
Ela: (Não, depois ele vai ficar com raiva)
Ele: (Poderia perguntar se ela gosta de fotografia)
Ela: (Quem sabe se eu falasse de fotografia)
Ele: (Argh, argh, argh)
Ela: (Argh, argh, argh)
Ele: (Ninguém vai entender nada)
Ela: (Ninguém vai entender nada)
Ele: (E se eu falasse de música)
Ela: (Ele gosta de música, é isso)
Ele e ela dizem ao mesmo tempo: Olha só, sabe no que eu tava pensando...
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Esta cena foi escrita há quase 3 anos. A fotografia é de Milena Jokic.
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Sábado, Novembro 14, 2009

(des noms)

Quase tudo isto foi copiado de uma peça de Novarina. Quase tudo, mas não tudo. Quer dizer, metade foi copiado.
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A máquina de dizer sim, Os orifícios mentais, O homem de sobre a terra, A aluna que encolhia a cada aula, A senhorita gramática, O guardião dos seixos, João Argila e seu eu maciço, O operário do mundo, A máquina de fazer panquecas de banana, O cantor em perdição, A filha da destruição, O ator da catástrofe, A menina que fazia melancia, O campeão do vazio, João Idéia Fixa, A pervertida milagrosa, A máquina de generalizar noções, O ser sem sujeito, Um comedor de coisas abertas, O último dos reclusos, A máquina de generalizar a morte, O empreendedor desanimado, A mão que bate palma sozinha, A máquina de reparar o vazio jurídico, O sujeito perdido, O personagem sem corpo, A poeta que escrevia sobre fábricas, O comedor que nega, A luz no fim do fundo e A leitora que cultiva hipocrisias e galinhas sem cabeça.
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A fotografia é de Olga Onischenko.
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Quarta-feira, Novembro 11, 2009

(mimesis)

Este conto não é meu. Mas gostaria que fosse. Apesar da minha vontade, ele não é meu. Quem escreveu este conto, que infelizmente não é meu, foi Thomas Bernhard. Este conto, escrito por ele, que infelizmente não é meu, se chama O imitador de vozes:
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Convidado de ontem à noite da Sociedade Cirúrgica, o imitador de vozes, depois de se apresentar no Palais Pallavicini a convite da própria Sociedade Cirúrgica, já havia concordado em se juntar a nós na Kahlenberg para, também ali, na colina onde mantemos uma casa sempre aberta a todas as artes, apresentar seu número, naturalmente não sem o pagamento de cachê. Entusiasmados com o espetáculo a que tínhamos assistido no Palais Pallavicini, pedimos ao imitador de vozes, natural de Oxford, na Inglaterra, mas que frequentou escola em Landshut e exerceu de início a profissão de armeiro em Berchtesgaden, que, na Kahlenberg, não se repetisse, mas apresentasse algo inteiramente diverso do mostrado na Sociedade Cirúrgica, ou seja, que imitasse na Kahlenberg vozes inteiramente diferentes daquelas imitadas no Palais Pallavicini, o que ele prometeu fazer. E de fato o imitador de vozes imitou na Kahlenberg vozes inteiramente diferentes daquelas apresentadas na Sociedade Cirúrgica, algumas mais, outras me nos famosas. Pudemos inclusive fazer pedidos, aos quais o imitador de vozes atendeu com a maior solicitude. Quando, porém, no final, sugerimos que imitasse sua própria voz, ele disse que aquilo não sabia fazer.
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A fotografia é de Daniel Douglas.
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Terça-feira, Novembro 10, 2009

(les_choses)


6790 pessoas falando ao mesmo tempo.
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6783 sabotadores arrependidos.
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6781 nomes de dor.
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6773 ausências.
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6770 excêntricos desamparados.
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6050 pessoas que acreditam na insônia.
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4029 minutos.
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3990 rabiscos.
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3987 feriados abafados.
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3783 hipóteses.
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3725 experiências lamentáveis.
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A fotografia é de Neil Krug.
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Sábado, Novembro 07, 2009

(pronto_final)

Ficar repetindo as coisas cansa, trabalhar cansa, calor cansa. Ficar repetindo as coisas dá trabalho, cansa. Ainda mais no calor. Não vou mais ficar repetindo as coisas. Porque repetir as coisas cansa. E repetir as coisas pode ser uma coisa sem graça. E uma coisa sem graça é uma coisa desgraçada. Dá trabalho, cansa e tem feito muito calor. Meu guarda-chuva continua na mochila, fazendo peso, porque tem feito muito calor. E quando faz muito calor geralmente chove. Mas não tem chovido. Não vou mais ficar repetindo as coisas, não vou mesmo. Ainda mais no calor. Ainda mais porque dá trabalho. Ainda mais porque ficar repetindo as coisas é uma coisa sem graça, desgraçada portanto. E nada que é desgraçado é engraçado. Esta é a última vez que fico repetindo as coisas, a última mesmo, de verdade. Dá trabalho. E cansa. Ainda mais no calor.
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A fotografia é de Sakamoto Junichi.
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