Quarta-feira, Maio 31, 2006

Outro poema de Yehuda Amichai

Assim a glória passa

Assim a glória passa, como um comprido trem sem
princípio nem fim, sem causa ou intenção. Eu sempre
fico num lado do cruzamento - a cancela está fechada -
e verifico tudo: vagões de passageiros e história, vagões
entulhados de guerra, vagões transbordantes de seres humanos
para extermínio, janelas com caras de homens e mulheres
de partida, exaltação de viajantes, aniversários
e mortes, súplicas e piedades,
e quantidades de vagões vazios chacoalhando.
Assim meus filhos passam a seu futuro,
Assim o Senhor passou sobre Moisés no Grande Deserto,
E Moisés não viu a Sua Face, só gritou:
"Senhor, ó Senhor, misericordioso e gracioso, abundante
em bondade e verdade". Assim a glória passa,
assim a cancela fica fechada
até o fim de meus dias.

[tradução de Millôr Fernandes. Mais traduções, poemas e outras coisas no arquivo do Pesa-Nervos, primeira temporada]

Terça-feira, Maio 30, 2006

As coisas não são para sempre


1969. Terraço da Apple, a última apresentação ao vivo dos Beatles.

Segunda-feira, Maio 29, 2006

Um poema de Víctor Sosa

;
os animais furiosos; os animais mansos; os animais anômalos; os animais carnívoros; os animais anfíbios; os animais articulados; os animais inarticulados; os animais microscópicos; os animais letais; os animais secretores; os animais isósceles; os animais mamíferos; os animais ofegantes; os animais saponáceos; os animais falantes; os animais gregários; os animais inseguros; os animais intrusos; os animais extintos; os animais temporais; os animais occipitais; os animais ilíacos; os animais indubitáveis; os animais libaneses; os animais sudoríparos; os animais soltos; os animais uníssonos; os animais vegetarianos; os animais vergonhosos; os animais otomanos; os animais legítimos; os animais gotejantes; os animais profiláticos; os animais rodantes; os animais ircuncidados; os animais peludos; os animais tautológicos; os animais antárticos; os animais estabelecidos; os animais secundários; os animais tintureiros; os animais silentes; os animais domésticos; os animais preguiçosos; os animais citados; os animais impelidos; os animais sagrados; os animais andinos; os animais abatidos; os animais mareados; os animais interiores; os animais eretos; os animais esponjosos; os animais aparte; os animais cibernéticos (...)

[do livro Sunyata e outros poemas. Tradução e organização de Claudio Daniel, Lumme Editor, 2006]

Domingo, Maio 28, 2006

As coisas não são para sempre


1977. No vestiário Pelé (então jogador do New York Cosmos) minutos antes de seu último jogo como profissional.

Sábado, Maio 27, 2006

De todos os vazios, Yehuda Amichai




De todos os vazios entre os tempos,
de todas as distâncias entre as filas de soldados,
das brechas do tapume,
das portas que fechamos mal,
das mãos que não juntamos bem,
do vazio entre nossos corpos que não apertamos
um contra o outro ?
nasce uma extensão vasta que se desdobra,
uma planície, um deserto,
por onde nossa alma irá sem esperança, depois da morte.


[Do livro Poesia de Israel, com traduções de Cecília Meireles, publicado em 1962 pela editora Civilização Brasileira. Yehuda Amichai também foi traduzido por Haroldo de Campos e Millôr Fernandes]

Quarta-feira, Maio 24, 2006

Overlapping 3 - de Luis Maffei

eu lhe diria: quem és tu?
que estas armas me têm maravilhado de
estupendas.
e ele, certo de pena e braçadeira,
ele
do ocidente capitão de maura lança
ele em silêncio:
"eu sou este notável
e grande ponta, da lança em obra
nunca feita gêmea, sou
de quem falas, sou aquele quando
o luxo nada mais é
que
alimento":

sei
Zinedine Zidane
ou

eu lhe dizendo que ele é
que estas formas me têm, maravilhado,
de pertença.
e o ar
dos sintomas sombra em azul hereditário
o ar em silêncio:
eu sou este, tremido
quando falo, sou decerto quando
o luxo nada mais é
que
evidência.

[do livro A, RJ: Oficina Raquel, 2006]

Terça-feira, Maio 23, 2006

Some girls are better than others


Monica Bellucci

Segunda-feira, Maio 22, 2006

Extinção - de Régis Bonvicino

O lobo-guará é manso
foge diante de qualquer ameaça
é solitário
avesso ao dia, tímido

detesta as cidades
onde quase sempre é atropelado
onívoro, com mandíbulas fracas
come pássaros, ratos, ovos, frutas

às vezes, quando está perdido,
vasculha latas de lixo nas ruas
engasga ao mastigar garrafas
de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder
lâmpadas fluorescentes
ou engolir fios elétricos
morre ao lambar inseticidas

ou restos de tinta
ou ao engolir remédios vencidos
ou seringas e agulhas
descartáveis

dócil, sem astúcia,
é facilmente capturado e morto
por traficantes de pele
quando então uiva

[poema publicado no número 1289 do Suplemento Literário de Minas Gerais]

Sábado, Maio 20, 2006




Duas passagens de Bartleby e companhia, romance do espanhol Enrique Vila-Matas [Cosac & Naify, 2004]

O diálogo entre o Não e o Sim:

Não: Tudo já foi dito - sobre o que era importante e simples de dizer - nos milênios em que os homens passaram pensando e se esforçando. Já foi dito tudo sobre o que era profundo em relação à elevação do ponto de vista, isto é, abrangente e extenso ao mesmo tempo. Hoje em dia, só nos cabe repetir. Só restam alguns poucos detalhes ínfimos ainda inexplorados, a de preencher os vazios com uma algaravia de detalhes.
Sim: Sim? Que tudo já foi dito, que não há nada a dizer, sabe-se, percebe-se. Mas o que menos se percebe é que essa evidência confere à linguagem um estatuto estranho, até inquietante, que a redime. As palavras salvaram-se, afinal, porque deixaram de viver.


Carta de Herman Melville [imagem] a seu amigo Hawthorne:

É maravilhoso o não porque é um centro vazio, mas sempre frutífero. Para um espírito que diz não com trovões e relâmpagos, o próprio diabo não pode forçá-lo a dizer sim. Porque todos os homens que dizem sim mentem. Quanto aos homens que dizem não, bem, encontram-se na feliz condição de ajuizados viajantes pela Europa. Cruzam as fronteiras da eternidade sem nada além de uma mala, isto é, o Ego. Enquanto, em compensação, toda essa gentalha que diz sim viaja com pilhas de bagagens e, malditos sejam, nunca passarão pelas portas da alfândega.

Quinta-feira, Maio 18, 2006



Um boi vê os homens

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos - e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que de despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e, difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

[Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma, 1951]

Quarta-feira, Maio 17, 2006

Boi morto

Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto.

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvores da paisagem calma,
Convosco - altas, tão marginais! -
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.


[Manuel Bandeira, Opus 10, 1952]

Terça-feira, Maio 16, 2006

Que tal assim?


Garota pesa-nervos: Ana Beatriz Barros

Segunda-feira, Maio 15, 2006

Uma e uma voz - poema de Júlio Castañon Guimarães

1.
que do ar uma voz
se acresce e assim desenha linhas
não apenas no espaço da imaginação
mas - desde a alta intensidade
até o limite da desistência -
em meio às variações de luz
com o excurso do movimento
e das figuras que se formam e expõem
as etapas de uma viagem de inverno
por exemplo organizadas em ciclo
quando de que profundezas - arquitetados
como volumes que de ar - por microcálculos
se extraem os extremos dos afetos

1.
uma voz que para além de seus tropeços
e da dúvida sobre sua eficácia
se arrasta para seu próprio fundo
como que desfazendo traços
de um evidência externa
e que cada vez mais despojada
até mesmo de sua memória
nessa via à beira do esmaecimento
deixa então descair para esse fundo
em que se enfurnam todas as maquinações
como que um complexo ou nó
de expansões e extravios de afetos
em torno à possibilidade de uma voz

[Práticas de extravio, 2003]

Domingo, Maio 14, 2006




Sobre fotografia - Susan Sontag
Fotos fornecem um testemunho. Algo de que ouvimos falar mas de que duvidamos parece comprovado quando nos mostram uma foto. Numa das versões da sua utilidade, o registro da câmera incrimina. (...) Numa outra versão de sua utilidade, o registro da câmera justifica. Uma foto equivale a uma prova incontestável de determinada coisa aconteceu. A foto pode distorcer; mas sempre existe o pressuposto de que algo existe, ou existiu, e era semelhante ao que está na imagem.

[A imagem acima é um testemunho do encontro de Susan Sontag com William Burroughs]

Sábado, Maio 13, 2006




Helio Oiticica por Waly Salomão

Helio surge demencial, imantado pela reverberação de uma aparência de bacante, dançando, girando, uma mênade enlouquecida, "Estou possuído", gargalhava das obras de arte expostas ao redor pelos outros artistas, balançava, blusa com a imagem dos Rolling Stones, blusão com a estampa do Jimi Hendrix, maquiagem carregada de ator de teatro japonês fazendo papéis femininos, o salto plataforma prateado, sério nunca, a performance era a chalaça com a pretensa seriedade dos artistas comprometidos com o mercado de arte. Insurrecto sistemático e sagaz. Frenético. Pra lá e pra cá. Rodopiava com muita naturalidade evitando sempre tornar o espaço baldio em palco. A performance ocorreu num estacionamento de automóveis da Rua Augusta perto da Avenida Paulista, duas vias emblemáticas do centro nervoso de São Paulo, a cidade econômica por excelência do Brasil, Helio Oiticica protagonizou um CLIMAX CORPORAL, um esbanjamento "exibicionista" e "inútil" ou seja anti-econômica. Errático. Passear por amor ao passeio enquanto fórmula para a libertação. Camuflagem e retorno do recalcado.

[do livro Armarinho de miudezas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993. Caetano Veloso está feliz, errático, com um parangolé de Helio Oiticica]

Sexta-feira, Maio 12, 2006

Escultura

O aço não desgasta
seus espelhos múltiplos
curvas
arestas
apocalíptica fera.

O aço não se entrega
e nem se estraga é
forma
- presença imposta sem signos.

O aço ameaça
- imóvel -
com a aspereza total
de seu frio.

Ó forma
violenta pura
Como emprestar-te algo
humano
uma vivência
um nome?


[poema de Orides Fontela, retirado de sua recente Poesia Reunida, 2006]

Para o livro de literatura de segundo grau



Um poema de Hans Magnus Enzenberger

Não leia odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos por ti.

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Poema de António Ramos Rosa

Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase:
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.


[Antologia poética, 1958-2001]

Terça-feira, Maio 09, 2006

Poema de George Oppen



O GESTO

A questão é: como alguém pega uma maçã
Alguém que gosta de maçãs

E como alguém manuseia
Imundície? A questão é:

Como alguém pega algo
Na mente que pretende

Segurar e como o vendedor
Pega o troço que ele tenciona

Vender? A questão é
Quando não mais haverá uma centena

De poetas que confundem esse gesto
Com estilo.

(George Oppen traduzido por Ruy Vaconcelos)

Poema publicado na revista eletrônica Zunái edição IX de Abril de 2006. A imagem é de João Vilhena. Imperdível. www.revistazunai.com.br

Os meninos e o sardão - por Ruy Duarte de Carvalho

Algum pequeno ser que de dia não atinja a dimensão de uma ameaça, se exponha à caça, a suscite mesmo, mas que assuma à noite a forma de um temor maior. Então desde cedinho se organizam bandos, farejam por toda a parte, por detrás das pedras, na trama das sebes, no filtro das sombras. E investem na busca toda a truculência, a tensão do sangue, o verdor da idade, a tesão do nervo, o riso insolente, a ânsia cega de qualquer ardência. Regressam exaustos das surtidas vãs, detidos sem jeito no que os justifica, cientes disso e vagos. Recolhem sós às projeções nocturnas do sardão que à luz do dia era tão frágil, acessível, exposto, ao alcance do arremesso, da agressão, do chiste, e no entanto sempre escapa e foge. E dormem. E há-de ser assim pela vida inteira.


[do livro Ordem de esquecimento, publicado em 1997. O sardão é um lagarto da família dos lacertídeos (Lacerta lepida), encontrado no Sul da Europa e Noroeste da África, de coloração verde com ocelos azuis nos flancos; alimenta-se de pequenos vertebrados].

Domingo, Maio 07, 2006

As Ruas - de Jorge Luis Borges



As ruas de Buenos Aires
já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas,
incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro,
quase invisíveis de tão habituais,
enternecidas de penumbra e de ocaso
e aquelas mais longínquas
privadas de árvores piedosas
onde austeras casinhas apenas se aventuram,
abrumadas por imortais distâncias,
a perder-se na profunda visão
de céu e de planura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas singulares as povoam,
únicas ante Deus e no tempo
e sem dúvida preciosas.
Para o Oeste, o Norte e o Sul
se desfraldaram - e são também a pátria - as ruas;
oxalá nos versos que traço
estejam essas bandeiras.

[do livro Fervor de Buenos Aires; tradução de Glauco Mattoso e Jorge Schwartz]

Quinta-feira, Maio 04, 2006

Neném gravidez



Acaba de ser lançado, pela primeira vez em CD, o álbum Nave Maria (1984) . Aquele que tem o próprio Tom Zé em plástico-placenta saindo da capa preta do disco, recortada em forma de nádegas ou coisa do gênero. Uma beleza. O lançamento é parte de uma série em comemoração dos 35 anos da Som Livre; a coleção tem ainda Os Brazões, Sidney Miller, Som/3 etc.
[Leonardo Gandolfi]



Segue um trecho de entrevista de seu livro Tropicalista Lenta Luta (2003) em que fala justamente de Nave Maria:

- Tem também a guitarra. A guitarra, com distorção - que é um sofrimento para se achar um meio-termo, para deixar o ataque preciso -, a guitarra com o baixo formam um naipe que parece meia dúzia de instrumentos. A guitarra com distorção, na oitava; e um violão uma quinta... não, uma sexta acima. Nave Maria está assim; e a primeira música daquele disco, Neném Gravidez, também. Isso me resolveu esse problema. Outra coisa: nesse método meu de ganhar a vida nos Estados Unidos, o baixo e a guitarra são como proto-instrumentos. Instrumentos ainda não desenvolvidos, sem capacidade de fazer harmonia ou canto, e que mal pudessem participar do naipe de instrumentos de percussão. Eles voltam a esse trogloditismo. Baixo e guitarra são percussão. Cavaquinho também. Depois que eu descobri isso... não foi de graça, custou uma sorte tremenda. No dia em que fomos ao estúdio de Manoel Maimonde, no Rio, gravar Nave Maria com Cesare Benvenutti [em 1979], eu pensava naquele acompanhamento do cavaquinho, combinado com o do baixo; pensava em fazer aquilo com vários instrumentos, usando as cordas do violão, por exemplo, para fazer coisas paralelas, como se fossem um desenho geométrico. Nem pensava em música. Era como um desenho. Só no braço do violão aquilo era igual. Botava a quarta corda para fazer, a quinta corda, a sexta; então ficava uma dissonância que não era prevista, nem em termos modernos, mas casual, e que eu me eximia de explicar. No estúdio isso não deu certo. É engraçado. A máquina não aceitava aquilo. Como sempre digo, a máquina é um censor estético do sistema. Mas eu tinha dois gravadores em casa e acabei conseguindo gravar como queria, passando de um gravador para o outro, com microfone. Mostrei, então, para o Cesare. E ele: Se você fez, eu faço também. Aí começou um trabalho que durou dois anos. Passei dois anos para gravar o primeiro playback. Foi o disco mais caro da história!

Quarta-feira, Maio 03, 2006

Um poema de Antonio Cicero

A morte de Arquimedes de Siracusa

Os equilíbrios dos planos, as quadraturas
das parábolas, os cálculos da areia,
das esferas, dos cilindros e das estrelas:
nada do que realizei se encontra à altura
do que há por fazer. A matemática é longa,
a vida breve; e logo agora Siracusa,
sitiada, quer alavancas, catapultas,
dispositivos catóptricos, cuja obra
suga meu sangue, que é meu tempo. Por milagre,
hoje deixaram-me em paz. Na garganta trago
intuições por formular: áspero e amargo
pássaro engasgado. Nas paredes não cabe
mais diagrama algum. Traço-os no chão do períbolo,
na terra. Quem vem lá? Não pises nos meus círculos!

[publicado no Goyaz Poesia, caderno do Festival de poesia que aconteceu entre os dias 23 a 26 de março, em Goiás (GO), com coordenação de Adalberto Müller e Graça Ramos. Este poema de Antonio Cicero está inédito em livro]

Terça-feira, Maio 02, 2006

A experiência contemporânea - por Giorgio Agamben


















Todo discurso sobre a experiência deve partir atualmente da constatação de que ela não é mais algo que ainda nos seja dado a fazer. Pois, assim como foi privado da sua biografia, o homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência: aliás, a incapacidade de fazer e transmitir experiências talvez seja um dos poucos dados certos de que disponha sobre si o mesmo. Benjamin, que já em 1933 havia diagnosticado com precisão esta 'pobreza de experiência' da época moderna, indicava suas causas na catástrofe da guerra mundial, de cujos campos de batalha 'a gente voltava emudecida, não mais rica, porém mais pobre de experiências partilháveis (...)'.

Porém, nos hoje sabemos que, para a destruição da experiência, uma catástrofe não é de modo algum necessária, e que a pacífica existência cotidiana em uma grande cidade é, para esse fim, perfeitamente suficiente. Pois o dia-a-dia do homem contemporâneo não contém quase nada que seja ainda traduzível em experiência: não a leitura do jornal, tão rica em notícias do que lhe diz respeito a uma distância insuperável; não os minutos que passa, preso ao volante, em um engarrafamento; não a viagem às regiões ínferas nos vagões do metrô nem a manifestação que de repente bloqueia a rua (...). O homem moderno volta para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos - divertidos oi maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes -, entretanto nenhum deles se tornou experiência.

[do livro Infância e História: destruição da experiência e origem da história, 2005, editora da UFMG, p. 21-22]

Segunda-feira, Maio 01, 2006

Normandia - de Carlito Azevedo

Imagina um menir precipitado todo inteiro
Victor Hugo

Se pudesse
calar-se: que
silêncios!
- mas
não viera para isso.
Exceto talvez aquele
dia, levou a mão à
cabeça, pousou os olhos
sobre um livro antigo
e deixou que o vento
acariciasse os seus poucos
cabelos, o sobretudo cinza,
as plantas e o rochedo que, é
provável, se situava bem em
frente ao oceano, o que
no entanto não podemos
ver mas apenas supor
pelo ar da foto e pelos
fiapos de sua biografia
que de lá e cá no chegam;
queria amá-lo como um
dia amaram-no mas faço
o que posso com o que
hoje sou e com o que
hoje é: os que a ele
se seguiram fizeram
tanto silêncio que
fica muito difícil
ouvi-lo.

[As banhistas, 1993]