Sábado, Dezembro 30, 2006

Feliz Ano Novo!!!


Mary J. Blige + U2, One
[de férias até 05/01/2007]

Feliz Ano Novo, Parte 2 (Refletir)




MELHOR É ESTAR ERRADO E FÉRTIL
Mário Faustino


Autocrítica (desde logo apologética): a falta de rigor. As contingências em que tem sido realizado nosso trabalho. A situação econômica. O trabalho mais importante que se faz nem sempre é nosso sustento. A falta de tempo. A necessidade de fazer, de ocupar um lugar vazio, de ter uma opinião, de transformá-la em moeda corrente ? tudo isso contra a necessidade de continuar vivo e vestido e abrigado em meio à crise inflacionária. Mais uma vez, a falta de rigor. Os enganos cometidos. Os blunders. A pressa. As traduções mal feitas (muitas vezes meros roteiros de compreensão para o leitor que não conhece a língua original). A desordem. As contradições. ?Do I contradict myself??. Very well, then I contrdict myself ( I?m large. I contain multitudes (Whitman). Os planos não realizados. Aqui e ali um julgamento apressado. Nostra culpa. Apologia: o aspecto jornalístico de nosso trabalho. O Aspecto ?tachista?: atirando manchas de instigação numa tela morta, vazia. Nossa deficiência de instrumentos. Falta de preparo suficiente. A hesitação já aludida, a dificuldade em tomar posições definidas. A apologia propriamente dita: Melhor é estar errado e fértil do que certo e estéril...

Feliz Ano Novo, parte 1



Obrigado por dizer Obrigado
Charles Bernstein


Este é um poema
totalmente acessível.
Não há nada
neste poema que seja,
de algum
modo, difícil
de entender.
Todas as palavras
são simples &
e diretas.
Não há novos
conceitos, teorias, ou
idéias para confundí-lo.
Este poema
não tem pretensões
intelectuais. É
puramente emocional.
Ele expressa
os sentimentos do
autor: meus sentimentos
a pessoa que se dirige
a você agora.
Seu objetivo
é falar de
coração a coração.
Este poema o aprecia
e o valoriza como
um leitor. Celebra
o triunfo da
imaginação humana
entre as armadilhas &
calamidades. Este poema
tem 90 linhas,
269 palavras, e
mais sílabas do que
meu tempo para contá-las.
Cada linha,
palavra, & sílaba
foi escolhida para transmitir
seu significado preciso
& nada mais.
Este poema abjura
a obscuridade & o enigma.
Não há nada
escondido. Uma centena
de leitores poderia
ler o poema
de maneira
idêntica & extrair
a mesma mensagem.
Este poema, como todos
os bons poemas, conta
uma história num estilo
direto que nunca
deixa o leitor
sozinho. Embora
às vezes expresse
amargura, ira,
ressentimento, xenofobia,
& insinue racismo, seu
verdadeiro tom é afirmativo.
Encarna alegria a despeito
destes momentos
da vida que
ele divide com
você. Este poema
representa a esperança
da poesia
que não vira as costas
para o público, que
não pensa que é melhor
do que o leitor,
que está empenhada
numa poesia como
forma popular, como
empinar pipa ou pescar.
Este poema
não pertence à uma
escola, e não tem
dogmas. Não segue a
moda. Diz apenas
o que diz. É
real.

[publicado na revista Sibila 11, tradução de Régis Bonvicino]

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

Passagens, Walter Benjamim



Moradas de sonho

Estas portas _as entradas das passagens_ são limiares. Não os demarca nenhum degrau de pedra, mas sim a atitude de expectativa de algumas pessoas. Passos parcimoniosamente medidos refletem, sem que as pessoas o saibam, que se está diante de uma decisão. Casa de sonho. Amor.
Lojas na passagem des Panoramas: Restaurante Véron, gabinete de leitura, loja de música, Marquês, comércio de vinhos, malharia, aviamentos, alfaiates, sapateiros, malharias, livreiros, caricaturistas, Théâtre des Variétés.
Em contraposição, a Passage Vivienne era a passagem séria. Lá não havia lojas de luxo. Moradas de sonho: passagem como nave de igreja com as capelas laterais.


A rua lasciva do comércio


O comércio e o tráfego são os dois componentes da rua. Ora, nas passagens, o segundo está praticamente extinto; o tráfego aí é rudimentar. A passagem é apenas rua lasciva do comércio, só afeita a despertar os desejos. Mas, como nesta rua os humores deixam de fluir, a mercadoria viceja em suas bordas entremeando relações fantásticas como um tecido ulcerado./ O flâneur sabota o tráfego. Ele também não é comprador. É mercadoria.

O tédio

O tédio é um tecido cinzento e quente, forrado por dentro com a seda das cores mais variadas e vibrantes. Nele nós nos enrolamos quando sonhamos.

Jogador, flâneur e o que espera

Em vez de passar ("vertreiben') o tempo, é preciso convidá-lo ("einladen") para entrar. Passar o tempo ou matar, expulsar ("austreiben") o tempo: o jogador. O tempo jorra-lhe dos poros./ Carregar-se ("laden") de tempo como uma bateria armazena ("lädt") energia: o flâneur. Finalmente, o terceiro tipo: aquele que espera. Ele carrega-se ("lädt") de tempo e o devolve sob uma outra forma _aquela de espera.

Jogos de azar

Quanto mais a vida é submetida a normas administrativas, mais as pessoas precisam aprender a esperar. O jogo de azar tem o grande fascínio de liberar as pessoas da espera.

Ferro-vidro, cafetões-prostitutas

A miragem empoeirada do jardim de inverno, a sombria perspectiva da estação com o pequeno altar da felicidade no ponto de intersecção dos trilhos, tudo isso mofa sob falsas construções, vidro que surge antes do seu tempo, ferro prematuro. Pois, no primeiro terço do século passado, ninguém sabia como se devia construir com vidro e ferro. Mas há muito que os hangares e silos resolveram a questão. Agora se dá com o material humano no interior o mesmo que com o material de construção das passagens. Os cafetões são os arrimos de ferro desta rua, e, as prostitutas, suas partes quebradiças como vidro.

A passagem como uma igreja

A passagem como construção em ferro fica na fronteira do espaço largo ("Breitraum"). Essa é uma das razões decisivas de sua aparência "antiquada". Ela ocupa aqui uma posição híbrida, que tem certa analogia com a da igreja barroca: "A cobertura (Halle) em abóbada, que admite até mesmo as capelas apenas como alargamento do seu próprio espaço, mais largo que nunca. Mas também nesta cobertura barroca prevalece a tendência 'para o alto', o êxtase dirigido às alturas, como rejubila nos afrescos do teto. Enquanto os espaços das igrejas pretendem servir a algo mais do que para fins de reunião, enquanto querem abrigar a idéia de eterno, o espaço único e contínuo apenas poderá satisfazê-los se a altura superar a largura" (A.G. Meyer, "Eisenbauten", pág. 74).
Inversamente, pode-se dizer que permanece algo de sagrado, um resquício de nave de igreja, nessa fileira de mercadorias que é a passagem.
Do ponto de vista funcional, a passagem já se encontra no domínio do espaço largo, porém, do ponto de vista arquitetônico, ainda está no espaço da antiga "cobertura".

O flâneur

Não seria possível realizar um filme apaixonante a partir do mapa de Paris? A partir da evolução de suas diversas configurações ao longo do tempo? A partir da condensação do movimento secular de suas ruas, bulevares, passagens, praças, no espaço de meia hora? Não é isso que faz o flâneur?

[tradução de Olgário Matos, do livro Passagens, Ed. UFMG, Imprensa Oficial de São Paulo, 2006]

Terça-feira, Dezembro 26, 2006

Sem chance de ajuda, Charles Bukowski




há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempo

nós saberemos

nós saberemos
mais que
nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

e

nós iremos esperar
e
esperar

nesse
lugar

[do livro Essa loucura roubado que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém, 7 Letras, tradução de Fernando Koproski, 2005]

Segunda-feira, Dezembro 25, 2006

Para escrever a rua, Radiohead


Everything in its right place

Sexta-feira, Dezembro 22, 2006

Aníbal Cristobo, Nouvelle vague para Marília Garcia

Muito bem, eu
escrevo ainda em afrikaans, só
para dizer: de todos

os filmes franceses que conheço e os
que não, você
continua sendo o meu favorito. Não é

que eu sempre lembro dessa cena
no japonês
em que você fumava, segurando

o cigarro com os dentes, e os dedos
sobre a mesa, a deslizar sobre
uma caixa verde; e
dizendo: "porque o mutismo

é sobretudo isto: mira! Es

imposible

hablar esta lengua!" O que foi
dessa caixa? Houve um
corte

na hora em que você levantava e
saía, e na seguinte
cena, como foi a seguinte
cena? Foi no

Alaska, de pé num deck, com
as mãos no bolso, olhando
a aurora boreal? Nem
me lembro, a perseguição no metrô me fez
esquecer. Mas voltando
ao assunto: o que tinha nessa caixa
verde? Outro dia

foi no Leeds que eu ouvi
falar nisso, quando aquela aeromoça
da Dragon Airlines - com a chuva

penteando seus cabelos compridos e
azeviche, mas sem desmanchar nem um átimo o
rimmel batismal com que os deuses
a destinaram para a sedução e o
extravio - parada no meio da rua

como uma possessa, me disse que na
China, lilás
era a cor do luto. Marília, onde

estão todos? Por que

ninguém leva essa menina
para casa? Ninguém vê
que ela só quer se deixar cair
no banco de trás do
carro

e ver passar a estrada, ouvindo
os pneus sobre o asfalto molhado, sonhando
com o seu quiosque de sopas de
peixe
em Kowloon? Ninguém

entende nada de
cinema, Marília, só querem
a ilusão do movimento na escuridão, não
gostam

das meninas que ficam paradas
em Leeds - mesmo que sejam hermosas e de braços
longuíssimos - embaixo
da chuva, com uma caixa verde na

mão, no transe do mistério.

[da revista Inimigo Rumor 18]

Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Para escrever a rua, Thelonious Monk


Epistrophy - Paris, May 13, 1966.

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

Um poema de José Lezama Lima

A Escada e a Formiga

À meia-noite
a formiga desce a escadaria do hotel.
Tenta seguir o alongamento de uma linha reta.
Às vezes pára: que labirintos resolverá?
Mas cada patamar a faz parar
de um modo surpreendente.
Anda pelo degrau como se procurasse
a encosta necessária para suas costas,
e então se precipita como se cantasse.
Está livre de todo compromisso,
mas acha de imprevisto um pedaço de asa
e corre pra alcançar a casa que desconhecemos.
Faz a folia em todas as escalas
e depois desce gabola até a outra
correndo como se estivesse numa praia.
Está feliz
por dominar a escada.
Sabe que terá sucesso em sua luta.
O sapato que pode machucá-la
passa raspando, mas lhe deixa
um pedaço de folha de tabaco,
uma pétala maculada,
o sal que acalora seus olhos dominantes.
É a senhora da escada
e passeou degrau por degrau
com a elegância de uma dama inglesa
que leva o lixo até a esquina,
ao latão verde
com a coroa inglesa
riscada pelos dois leopardos.

[tradução de Josely Vianna Baptista, revista Inimigo Rumor, Um]

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Como tocar sem fones de ouvido?


Kid Koala + 2, Skanky Panky

Um poema de Arkadii Dragomoshchenko

O vento esculpiu
em cada canto de um círculo.
A lava de andorinhas se acumula de novo nas gargantas das alturas
destruindo a eufonia da medida, correspondência.
Prenunciam um dilúvio, a separação de gêmeos,
de significado e sentido, elas se emaranham às escuras
linhas nas hélices da flor do norte,
agarram-se com ganância, perfurando o plano da luz -
avidamente você enfileira partículas de gerúndios,
descendo degrau por degrau
até o fundo da tabela de verbos -
a mudez da serpente.
Eros ou comida.
Não existe altura nem profundidade no ciclo da água.
Eros é somente o sentido múltiplo
de um único ponto deixando o "tempo" para trás -
ele ultrapassa sua própria volta.
A curva
da divisão infinita está num toque
(o problema do livro invertido da aritmética);
viajantes se dispersam como ramos de outono no céu
diminuiu a umidade do frio, removeu-se
o peso das folhas
na base do que o vento esculpiu.

[publicado na Sibila 11, tradução: Régis Bonvicino]

Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

Para escrever a rua, Catulo + Ursula Meyes



Dá-me pois mil beijos, e mais cem,
e mil, e cem, e mil, e mil e cem.
Quando somarmos muitas vezes mil
misturamos tudo até perder a conta:
que a inveja não ponha o olho de agouro
no assombro de uma tal soma de beijos.

[tradução de Haroldo de Campos]

Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

Uma passagem de O gato por dentro, William Burroughs




Considere a variedade de felinos selvagens: muitos do tamanho de um gato doméstico, outros muito maiores, e outros muito menores, que não passam, quando adultos, do tamanho de um filhote de três meses de gato doméstico. Dessas linhagens de gatos, muitas não podem ser domesticadas em idade alguma - de tão ferozes e selvagens que são seus espiritozinhos felinos.
Mas paciência, dedicação e cruzamentos...gatos sem pêlos de um quilo, sinuosos como doninhas, incrivelmente delicados, com pernas longas e magras, dentes afiados, orelhas grandes e olhos de um âmbar brilhante. Essa é apenas uma das linhagens exóticas que alcançam preços altísimos nos mercados de gatos...gatos que voam e que planam...um gato de um azul-claro elétrico, que exala um leve cheiro de ozônio...gatos aquáticos com membranas entre os dedos dos pés (ele emerge com uma truta morta na boca)...delicados gatos de pântano, magros, de ossos leves e patas largas e chatas - conseguem deslizar com grande velocidade sobre areia movediça e lama...pequenos gatos lêmures com olhos enormes...um gato escarlate, laranja e verde com pele de réptil, um pescoço comprimdo e sinuoso e presas venenosas - o veneno é parecido com o do polvo de anéis azuis: dois passos e você cai de cara, uma hora depois, está morto...gatos gambás com um jato mortal que mata em segundos como garras no coração...e gatos com garras venenosas que secretam veneno de uma grande glândula no meio do pé.

Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

Régis Bonvicino + Alec Soth



[imagem de Alec Soth]


ME TRANSFORMO

Me transformo,
outra janela -
outro
que se afasta e não se reaproxima

nas desobjetivações e reativações,
nas linhas e realinhamentos
outros
me atravessam

morto de ser
coisas perdem sentido
expressões figuradas como
ossos de borboleta

me transformo
na observação
de uma pétala

*

Me destransformo
a mesma janela -
outro
que não se afasta

Nas objetivações,
alinhamentos
e linhas inexistentes
iguais me repassam

Retrato desativado,
taxidermista de mim mesmo

(em Ossos de Borboleta, 1996)

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Para escrever a rua, White Stripes + Kate Moss


I don't know what to do with myself

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

O chupa-tinta

Papai é livreiro. Adora livros. Ele os devora. É um ogro. Lê o dia inteiro e às vezes até mesmo à noite. É uma doença incurável, mas isso não parece preocupar muito o médico de nossa família.
Toda noite uma nova pilha de livros desembarca em casa. Há livros por toda parte, até no banheiro. Uma invasão. Imposível reclamar. Para papai, os invasores sempre têm razão. Ele fala com eles como se fossem seres humanos. Inventa nomes para eles e os chama de meus livrinhos. Todos os livros são seus amigos.
Quanto a mim, não tenho amigos. E também não gosto dos livros. Por fora, pareço com papai. Mas por dentro, aí sim, somos dois estranhos.

[do livro O chupa-tinta, publicado pela Martins, 2006, de Éric Sanvoisin, com ilustrações de Martin Matje.]

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Um poema de Alexandre O´Neill



Hah!

Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu não acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire:
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro:
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinehiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama,
que a outra é contigo, coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...

[Não há dúvida, é Apollinaire na foto!]

"No futuro ninguém será famoso"

Museu alemão mantém artistas no anonimato
Ninguém sabe quem são os autores dos trabalhos e os curadores da exposição "No Futuro Ninguém Será Famoso", em Frankfurt

11 participantes de renome internacional (quem serão?) toparam expor ocultando a identidade; idéia é eliminar os preconceitos do público


SILVIA BITTENCOURT
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE FRANKFURT

"No Futuro Ninguém Será Famoso." Com um título programático, em tom de manifesto, uma exposição recém-inaugurada no Museu Schirn, em Frankfurt, apresenta até janeiro obras de 11 artistas internacionais famosos, mas que concordaram permanecer anônimos para o evento.
Além do nome dos artistas, ao visitante também é negada qualquer informação sobre a origem e o currículo deles, assim como as obras ali expostas: desenhos, fotos e esculturas, por exemplo. Também é desconhecido do público o nome do curador ou curadora do evento.
"Trata-se de uma experiência", afirmou Max Hollein, diretor do Schirn, na inauguração. "A exposição questiona o que acontece com a obra de arte quando ela se liberta de sua autoria. O visitante fica com a difícil missão de avaliar a obra segundo critérios imanentes, desconhecendo o nome e a vida do artista", acrescentou.
Um "Manifesto da Anonimidade" ali exposto também mostra se tratar de uma espécie de protesto contra o "establishment" artístico. Ele critica a influência do mercado sobre o processo de criação e a "utilização dos artistas como marcas".
O mesmo vale, na opinião de Hollein, para os curadores. "Muitos se tornaram empresários, dirigindo com seus nomes as linhas de recepção. A obra de arte acabou em segundo plano, perdendo seu potencial subversivo", acrescentou.
Foi neste contexto que surgiu a idéia de uma exposição de anônimos. "Não se trata apenas de eliminar o nome do artista, mas sim os preconceitos que o público traz quando aprecia uma obra", diz o curador ou curadora do evento, numa entrevista (anônima) publicada no catálogo da exposição. "Os visitantes devem formar sua própria opinião, sem serem manipulados por textos jornalísticos, críticas e catálogos."
Já na entrada da exposição o público percebe que será deixado literalmente às escuras. Devagar o visitante tem que atravessar corredores escuros, em forma de labirinto, até desembocar em salas, onde cada obra recebe iluminação especial.
Um grupo de alunos de ginásio aprecia, por exemplo, três canoas penduradas. "Sem saber quem é o autor, para cada obra a gente tem mil perguntas", afirma um dos adolescentes.

Palpites
Nenhum visitante questionado pela Folha arriscou adivinhar a autoria das obras ali expostas. "Acho que a gente nem tem que adivinhar. Só apreciar mesmo", disse a estudante universitária Anna Baur.
Nem os críticos dos principais jornais alemães ousaram citar artistas que pudessem ter participado dessa "experiência" no Schirn. Apenas Gerd Döring, colaborador de um site de Frankfurt, afirmou que alguns trabalhos expostos lembram obras dos fotógrafos Thomas Demand, da Alemanha, e Jeff Wall, do Canadá.
Quem procura informações no catálogo da exposição também nada encontra. Em vez de guiar o visitante pelos trabalhos, o catálogo é mais uma reunião de textos (estes, sim, assinados) e fotos, chamando a atenção para "possibilidades infinitas" de anonimidade.
"Exercitar a anonimidade", aliás, é um dos objetivos do evento, segundo o diretor do projeto, Matthias Ulrich. Além de confrontar o público com obras anônimas, a exposição transcende suas salas escuras. Um folheto distribuído na entrada, por exemplo, sugere ao visitante um passeio pelos arredores do Schirn, chamando a atenção para detalhes nas ruas.

[Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 03/12/ 2006, dica de Manoel Ricardo de Lima]

Sábado, Dezembro 02, 2006

Ah, a música!


Madlib - Slim Returns