Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

Esta fotografia, tua última, de Jacques Roubaud

Esta fotografia, tua última, deixei-a na parede, onde a puseras,
entre as duas janelas,


E ao entardecer, recebendo a luz, sento-me, nesta cadeira,
sempre a mesma, para olhar para ela, onde a puseste, entre as
duas janelas,


E o que se vê, aí, recebendo a luz, que declina, no golfo de
tetos, à esquerda da igreja, o que se vê, ao entardecer,
sentado nesta cadeira, é, precisamente,


O que mostra a imagem deixada na parede, no papel marrom
escuro da parede, entre as duas janelas, a luz,


Avança, em duas línguas oblíquas flui na imagem, de revés,
até o ponto exato onde o olhar que a concebeu, o teu, concebeu,
versar indefinidamente a luz reversa a quem, eu, olha para ela,


Pousada, no centro, do que ela mostra,


porque nesse centro, o centro do que ela mostra, que eu vejo,
há também, recorrente, a própria imagem, contida nele, e a
luz, entra, desde sempre, do golfo de tetos à esquerda da igreja,
mas sobretudo há, o que agora falta


Tu. porque teus olhos na imagem, que olham para mim,
neste ponto, nesta cadeira, onde eu me sento, para ver-te, teus
olhos,


Já vêem, o momento, em que estarias ausente, prevêem-no, e é
porque, eu não pude mover-me deste lugar.


[do livro Algo: Preto, 2005, tradução de Inês Oseki-Dépré]

Para continuar, Catulo + Rachel Stevens


Dá-me pois mil beijos, e mais cem,
e mil, e cem, e mil, e mil e cem.
Quando somarmos muitas vezes mil
misturamos tudo até perder a conta:
que a inveja não ponha o olho de agouro
no assombro de uma tal soma de beijos.
---
[tradução de Haroldo de Campos]

Sábado, Fevereiro 24, 2007

Coldplay, Yellow (Live in Sydney, 2003)

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

Um poema de Jacques Prévert

Para pintar o retrato de um pássaro

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois de pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer...
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeria do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

[do livro Poemas, tradução de Silviano Santiago]

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Regina Spektor, Better

Já ia me esquecendo: a Regina Spektor (Begin to hope, 2006)também fez parte da trilha do carnaval.

Carnaval, cinzas


Alguns discos que não escutava há tempos, e que escutei no carnaval: REM (Green, 1988), The Smiths (quase tudo), Pixies (Trompe le monde, 1991), Talking Heads (Little creatures, 1985), Bob Marley (Catch a fire, 1973) e Miles Davis (Kind of blue, 1959). Dos discos mais novos: Coldplay (Parachutes, 2000), Devendra Banhart (Cripple crow, 2005), Pharrell (In my mind, 2006) e Jurassic-5 (Feedback, 2006).
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Num tempo de Grazi Massafera, Juliana Paes e outras beldades, lembro da Scarlett Johansson (mas já tá na hora de tirar a máscara, hoje é Cinzas!!!).
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Ah, feliz aniversário Dylan Dog, quando você voltar a gente comemora em grande estilo, abração e felicidades!!!
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E do pouco que sobrou, lembro deste poema de Baudelaire:
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O estrangeiro
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- A quem mais amas, responde, homem enigmático: a teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmão, nem irmão.
- Teus amigos?
- Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.
- Tua pátria?
- Ignoro em que latitude está situada.
- A beleza?
- Gostaria de amá-la, deusa e imortal.
- O ouro?
- Detesto-o como detestais a Deus.
- Então! a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?
- Amo as nuvens... as nuvens que passam... longe... lá muito longe ...as maravilhosas nuvens!
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[do livro Pequenos poemas em prosa, tradução de Aurélio Buarque de Holanda]

Domingo, Fevereiro 18, 2007

Um poema de Marília Garcia

SVETLANA
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na véspera de sua partida para
ny, emmanuel hocquard datilografa
um poema de george oppen
em sua máquina de escrever
underwood n. 3. é como svetlana querendo voltar
para barcelona aqui não fico
mais nem um dia dizia no café
com nome grego que
lhe fazia falta ver as coisas
invisíveis daquela cidade e seu marido
na contramão carregando
no braço o menino sem língua,
tentando alcançar o que
aparecia do outro lado do mar
se alguém ainda viria
para ajudá-los
nesta época
do ano a tormenta não costuma
demorar (o poema era em inglês)
e tinham medo de se perder,
ela dizia, por isso a distância,
ritmo de degrau seguindo
cortado, por isso
o modo de andar e
o zigzag do avião sempre que saíam juntos.
tinham medo e todos os dias fazia
algo para evitar. depois queria
encontrá-lo na rua,
perdido, como um acidente:
cruza uma esquina e vê. desligou
a chamada na hora
precisa, a voz cortada outra
vez antes de seguir
pelas ramblas.

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[Este poema está no livro novo de Marília Garcia, que será lançado em breve. Darei notícias aqui. Para os amigos: terminei a dissertação. Estou descansando, vendo filmes, escutando muita música etc. A semana passada foi punk, mas tenho certeza ou quase isso que esta não será. Bom carnaval para todos!!!]

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Madonna, Jump

Are you ready to jump? / Get ready to jump / Don’t ever look back, oh baby / Yes, I’m ready to jump / Just take my hands / Get ready to, are you ready?

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

Uma semana na Jamaica, cena três

[Depois de A e B irem cada qual para um lado, eles se encontram outra vez, diante da mesma imagem, uma fotografia do Man Ray. Agora estão sentados. A cena, que poderia ser a última ou a primeira de um filme, acontece numa galeria ou num museu, no mesmo museu, é claro. A e B não falam, entre parêntesis estão reproduzidos seus pensamentos. C a esta altura já está em casa, mas continua resmungando]
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B - (Eu poderia falar alguma coisa)
A - (Acho que vou falar alguma coisa)
B - (Não, depois ela vai ficar com raiva)
A - (Não, depois ele vai começar a fazer perguntas)
B - (Poderia perguntar se ela gosta de fotografia)
A - (Quem sabe se eu falasse de fotografia)
B - (Argh, argh, argh....)
A - (Argh, argh, argh....)
B - (Ninguém vai entender nada)
A - (Ninguém vai entender nada)
B - (E se eu falasse de música)
A - (Ele gosta de música, é isso!)
A e B (dizem ao mesmo tempo) - Olha só, sabe o que eu tava pensando....

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Uma semana na Jamaica, cena dois


[A e B discutiram na cena anterior. Eles decidiram que deveriam seguir em frente. C saiu pela esquerda, resmungando. Mas A e B são teimosos. Eles olham este auto-retrato de Man Ray numa galeria ou num museu (o que indica que há uma exposição do surrealismo ou uma retrospectiva do próprio Man Ray). A cena, que poderia ser o final ou o começo de um filme qualquer, é segunda de três]
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B (hesitante) - Para qual lado afinal?
A - Não é lado, é para frente!!!
B - Mas....
A - (interrompendo) - Não foi este o sentido, para frente, sabe, continuar...
B - Então, sentido, direção e tal, para qual lado?!
A - (com bastante raiva) - Argh, argh, argh...
B - Tá bom, eu vou pra aquele lado, você vai pra esse?!
A (ainda com raiva) - Certo, combinado!
(alguém parece cair de uma escada)
A (mais uma vez com raiva) - Argh argh, argh!
B (espantado, como sempre) - O que você disse?
A - Nada, nada, deixa pra lá.
(um silêncio, bem curto)
B - Mas, se por acaso, nos encontrarmos lá?!
A - Argh, isto não seria o acaso?!
B (pensativo) - É, é verdade.
A - Então, um beijo, até!
B - Até, outro beijo!

Uma semana na Jamaica, cena um


[A e B olham esta fotografia de Man Ray numa galeria ou num museu. Eles estão desconfiados. A cena pode ser o começo ou o final de um filme. C está perto deles, também olha a fotografia]
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A - Para frente.
B - Para frente?
A - Para frente, oras...
B - Bolas?!
A (com bastante raiva) - Argh, argh, argh...
B (espantado) - O que você disse?!
A - Nada, argh...
B - Para frente então.
A - Isto se der...
B - Se der ou para frente?!
A - Para frente, mas se der!!
B (pensativo) - É isso, para frente!!
C - Que horas são por favor?
A - Argh, argh...
B - Argh, argh...
C (sai pela esquerda) - Oras...
A - Um beijo.
B - Outro então.

Anúncio da perda, Hans Magnus Enzensberger

Perdem-se o cabelo, os nervos,
vocês entendem, o tempo precioso,
perde-se altura no posto
perdido, brilho, sinto muito,
não faz mal, por pontos,
não me interrompam, perde-se
sangue, pai e mãe,
o coração perdido em Heidelberg,
sem pestanejar
perdem-se, de novo, os encantos
da novidade, passa-se uma esponja,
os direitos cívicos, oh sim,
a cabeça, em nome de Deus, a cabeça,
se for indispensável,
o paraíso perdido, por mim,
o emprego, a ovelha perdida,
a cara e ainda por cima,
um molar, duas guerras mundiais,
perdem-se três quilos de sobrepeso,
perde-se, unicamente, se perde, também
as ilusões perdidas há muito,
vá lá nem uma palavrinha perdida
sobre o esforço perdido,
vá, a luz dos olhos
perde-se de vista, uma pena, a chave da casa,
uma pena, a si mesmo, perdido em pensamentos,
perde-se a gente na multidão,
não me interrompam,
o juízo, o último vintém, seja, mas já estou chegando ao fim,
a linha, o saco e a farinha,
perde-se tudo de vez,
ai, inclusive o fio,a carteira de motorista, e a vontade.
---
[do livro Eu falo dos que não falam, traduçãoKurt Scharf, Armindo Trevisan, Brasiliense, 1985]

Sábado, Fevereiro 10, 2007

Cassie, Um coca-cola com você


Uma Coca-Cola com Você
-
é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travesera de Gracia em Barcelona
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando pelos olhos de seus nós
e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta
-
de repente você se surpreende que alguém se tenha dado ao trabalho de pintá-los
olho
para você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro Polonês que de qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu Descendo a Escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou Michelangelo que costumava me deslumbrar e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o cavaleiro tão bem
quanto o cavalo
acho que eles todos deixaram de ter uma experiência maravilhosa que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando
---
[A semana foi um pouco estranha, várias coisas aconteceram: dylan dog triste (e eu nem gosto disso), um amigo de floripa tb ficou triste, calor, a derrota do meu time, situações inesperadas, errar algumas vezes (e eu, quase sempre, erro) etc. Eu gosto bastante de coca-cola, mas sei que faz mal e tal, eu gosto muito desse poema do Frank O'Hara, traduzido pela Luiza Franco Moreira, e publicado na IR 9 e gosto da Cassie, que não é de plástico (é só clicar na imagem e conferir). Enfim, prometo menos desordem na próxima semana, abraços/beijos em vocês]

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Daqui, algumas coisas


Um amigo me disse, ontem, que "até namoraria a Lily Allen". Sensacional, demais. Um dia você vai, sim, namorar com ela, tenho certeza! Alright, still!
---
Charlotte Gainsbourg, a moça do clip de ontem, afirmou, em entrevista à Rolling Stone espanhola, o seguinte: "Queria que todas as canções juntas [do disco 5:55] significassem algo, tivessem um fio condutor. Neste caso é a noite, a insônia. Uma viagem até o meio da noite. À esse momento em que aparecem os sonhos. Às 5h55 da madrugada".
---
Nos intervalos da escrita, leio Kafka de Crumb, com textos de David Zane Mairowitz e desenhos, é claro, de Robert Crumb. Sinistro, casca-grossa e bizarro.
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Das poucas novidades, as mesmas músicas: duas ou três do Pharrell, uma do Andre Nickatina (indicação do amigo que é namorado da Lily Allen), uma do Cansei de ser sex, três do Radiohead, um disco do Sufjan Stevens e uma canção da Corrine Bailey Rae (a moça da fotografia de hoje), que é bacana demais.
---
Das duas, uma: ou o mundo acabou mesmo ou estou errado (e, felizmente, quase sempre estou errado). Com saudades de vocês, do meu amigo anônimo e de outros que aqui passam/passavam. Ah, e lembro destes versos do Drummond: "Pois de tudo fica um pouco. / Fica um pouco de teu queixo / no queixo de tua filha. / De teu áspero silêncio / um pouco ficou, um pouco / nos muros zangados, / nas folhas, mudas, que sobem". Espero que fique mesmo um pouco. Ou que não fique nada.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Charlotte Gainsbourg - 5.55

[ah, isso é estilo, bacana, vou-nessa, abraços]

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

Estilo, de Charles Bukowski


estilo é resposta para tudo –
um novo modo de alcançar coisas bobas ou
perigosas.
fazer uma coisa boba com estilo
é preferível à realizar a perigosa
sem ele.

Joana D’Arc tinha estilo
João Batista
Cristo
Sócrates
César,
Garcia Lorca.

o estilo faz a diferença,
o jeito de fazer,
o jeito de ser feito.

6 garças permanecendo imóveis numa poça d’água
ou você saindo nua do banheiro
sem me
ver.
-
[style is the answer to everything – / a fresh way to approach a dull or a / dangerous thing. / to do a dull thing with style / is preferable to doing a dangerous thing / without it. / Joan of Arc had style / John the Baptist / Christ / Socrates / Caesar, / Garcia Lorca. / style is the diference, / a way of doing, / a way of being done. / 6 herons standing quitly in a pool of water / or you walking out of the bathroom naked / without seeing / me.]
-
[tradução de Paulo Maldonado]

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

José, Carlos, para onde?


José
-
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
-
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
-
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
-
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
-
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
-
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse...
-
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
-
[do livro José, Poesia completa, Nova Aguilar, 2001]

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

Relembro um problema, Yehuda Amichai

Relembro um problema

Relembro um problema num livro de matemática
Sobre um trem que sai do local A e outro trem
Que sai do local B.
Quando vão se encontrar?
Ninguém jamais perguntou o que acontece quando eles se encontram:
Param, passam um pelo outro, colidem?
Nenhum dos problemas era sobre um homem que sai do local A
E de uma mulher que deixa o local B.
Quando vão se encontrar,
Será que vão se encontrar, e por quanto tempo?
Quanto ao livro de matemática: agora cheguei
Às páginas finais com as respostas.
Na época era proibido olhar.
Agora é permitido.
Agora eu verifico
Onde acertava e onde errava,
E sei onde fui bem e onde não fui.
Amém.

[PS: está aí, até segunda-feira!]

Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

REM - It's The End Of The World

[PS: eu devia ter a idade deste garoto, quando assisti ao clip pela primeira vez. Foi muito bacana, senão "emocionante", revê-lo agora. Divido com vocês então. É o fim do mundo, mas eu me sinto bem!!"]

...so what?



Everything In Its Right Place

Everything, everything, everything, everything...
In its right place
In its right place
In its right place
In its right place

Yesterday I woke up sucking a lemon
Yesterday I woke up sucking a lemon
Yesterday I woke up sucking a lemon
Yesterday I woke up sucking a lemon

Everything, everything, everything...
In its right place
In its right place
In its right place
Right place

There are two colours in my head
There are two colours in my head
What, what is that you try to say?
What, what was that you tried to say?
Tried to say... tried to say...
Tried to say... tried to say... tried to say...

Everything, everything, everything...
Everything in its right place