Sábado, parte 4

ou Das passagen-werk program



Segunda-feira: Pode começar amanhã?
Página órfã é o novo livro de Régis Bonvicino: prefácio de João Adolfo Hansen e desenho de capa dos Osgemeos. Excelente, sensacional!!! Um poema do livro (que já apareceu aqui no Pesa-Nervos) + trecho de entrevista:
Extinção
O lobo-guará é manso
foge diante de qualquer ameaça
é solitário
avesso ao dia, tímido
detesta as cidades
onde quase sempre é atropelado
onívoro, com mandíbulas fracas
come pássaros, ratos, ovos, frutas
às vezes, quando está perdido,
vasculha latas de lixo nas ruas
engasga ao mastigar garrafas
de plástico ou isopores
se corta e ou morre ao morder
lâmpadas fluorescentes
ou engolir fios elétricos
morre ao lambar inseticidas
ou restos de tinta
ou ao engolir remédios vencidos
ou seringas e agulhas
descartáveis
dócil, sem astúcia,
é facilmente capturado e morto
por traficantes de pele
quando então uiva
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Último Segundo - "Página órfã" é uma coletânea de poemas escritos entre 2004 e 2006? Onde o leitor encontra uma unidade no livro?
Régis Bonvicino - "Página órfã" não é uma coletânea de poemas, mas um livro de poemas. Sempre criei meus livros como projetos de unidade e, agora, mais maduro, aos 52, este ato torna-se quase automático em mim. O leitor vai encontrar unidade no seguinte: tradição de vanguarda, ousadia, na construção dos poemas (e não me venham os manés, os dogmáticos da parvoíce, falarem em "concretismo" - maneira sórdida de tentar rasurar qualquer poesia que não esteja conforme a mediocridade -, porque falo de técnicas futuristas, dadaístas (nonsense), construtivistas de um modo geral (Drummond, Murilo Mendes e João Cabral no Brasil) e desconstrutivistas até, e exploração intensa de temas contemporâneos, antiliterários por natureza. Os poemas são diretos (legíveis), duros (críticos), políticos, falam de moda, de grafites, de beldades, de afetos dolorosos, de personalidades partilhadas pela mídia como Kate Moss, Gisele Bündchen, Caetano (Kaetán), de mendigos; não quis fazer poemas "bonitinhos", mas poemas "ordinários" (no sentido plurívoco da palavra), compondo uma visada pouco complacente - espero - em relação às cidades e seus clichês, às pessoas, ao Brasil e à própria idéia de "poesia" e de "arte" e inclusive a de "vanguarda" praticada entre nós - que abertamente questiono; afirmo idem que o livro não é proselitista, o que poderia parecer, pelo que acabei de dizer. Mas, como dizia Drummond, e eu concordo, quem melhor "fala" por um livro são seus poemas.
Ouverture La vien em Close
Hoje eu andei um pouco, mas desviava das pessoas. Nem passei por cima dos carros. E nem estava com raiva.
Andei um pouco e voltei para casa. Bonde da caminhada (no final do clip a banda toda aparece)
E me lembrei disto também:
" - Indique-me sua direção, onde você se encontra agora?
- Estou exatamente na esquina da Rua Walk com a Rua Don´t Walk"
[do Poema Jet-Lagged, de Waly Salomão]
Excelente tudo isso. Viva o lado "andar" da vida!!!
Um poema de C. Tarkos


- Em outras palavras, eu sou três. Um homem fica sempre no meio, despreocupado, sem se emocionar, observando que lhe permitam expressar o que ele vê para os outros dois. O segundo homem é como um animal assustado que ataca por medo de ser atacado. E, então, há uma pessoa gentil e superamorosa que acolhe as pessoas no templo mais sagrado do seu ser, aceita insultos, confia, assina contratos sem ler, cair na conversa dos outros e acaba trabalhando barato ou de graça, e quando percebe o que lhe fizeram tem vontade de matar e destruir tudo ao seu redor, inclusive a si mesma por ter sido tão estúpida. Mas não consegue, e volta para dentro de si mesma.
- Qual deles é real?
- São todos reais?
- O homem que obsersa e espera, o homem que ataca porque tem medo e o homem que quer confiar e amar mas recua cada vez que se sente traído. Mingus Um, Dois e Três. Qual é imagem que você quer que o mundo veja?
[do livro Saindo da sarjeta: a autobiografia de Charles Mingus, 2005]

O Rei Leão:
