Domingo, Abril 29, 2007

Mais outro tipo de azul


Blue train (1957), de John Coltrane, é a trilha sonora do feriado. Mais um outro tipo de azul. Não um azul tão bacana quanto o azul de Kind of blue, do Miles (isto, porém, é só uma opinião). Coltrane, aliás, toca nesse disco do Miles. I'm Old Fashioned é uma das melhores de Blue train (ah, uma outra opinião aqui). Ah, e me lembrei disto: but you could distinguish Miles from Coltrane.
---
Mais uma da Jenny Holzer: SOMEONE IS TAKING CARE OF US.
---
Com inveja de alguns versos de Benjamin Prado, poeta espanhol traduzido pela Marília Garcia. Gostaria de ter escrito isto: "Eu sou você e eu correndo pelas ruas de Londres". E isto também: "Quem vislumbrou nas linhas de sua mão, / apenas um segundo, / como se fosse algo que emergisse um instante / do fundo de um rio; / quem vislumbrou em sua mão a história de outra vida".
---
Enfim, vou descansar, volto amanhã ou depois.

Sábado, Abril 28, 2007

Um poema de Benjamin Prado



OLHANDO FOTOS DE ANNE SEXTON (1928-1974)
---
Na primeira foto, Anne Sexton olha o mar.
Sabemos que é uma praia em Virgínia,
Carolina do Norte, e que é o ano
de 48, um dia
de sua lua de mel.
Tem os olhos
semifechados, enquanto ouve o rumor
das ondas, o vento que desfaz
e volta a erguer as dunas,
a água que se move com lentidão,
que traça
linhas,
curvas,
esferas.
A água que se move como a mão
de alguém que escreve a palavra oceano.
---
Na segunda imagem
— agora já estamos em mil novecentos e
setenta e quatro —, fuma um cigarro
perto de uma janela — por alguma razão
creio que do outro lado do vidro há um bosque —
e observa as figuras
formadas pela fumaça: peixes,
um iceberg,
uma sereia,
um anjo
gravemente ferido na neve.
---
Nesta foto
tem um aspecto estranho,
parecido ao de alguém que corre para um vulcão
ou ao de alguém que acaba de largar uma faca.
---
Poucos
dias
depois
Anne Sexton vai se matar
nesta mesma casa;
vai deixar
seus anéis
sobre uma mesa, na cozinha,
e em seguida
entrará na garagem
com um copo
de vodka
na mão,
ligará o motor
do carro – um Cougar vermelho — e o rádio
— você imagina o que ela pôde ter ouvido? James Taylor?
Grateful Dead? Pink Floyd?—
E esperará a morte.
---
Fecho o livro
Você me olha.
Sei o que está pensando:
— A vida é muito difícil.
Uma mulher é um relógio de areia.
---
[tradução de Marília Garcia, IR 18]

Sexta-feira, Abril 27, 2007

Kid Koala, Drunk Trumpet

Live at Maida Vale For 6 Music - Part 3

Terça-feira, Abril 24, 2007

Uma semana na Jamaica, cena 5


[A e B sempre num museu, mas esta cena poderia acontecer numa ruazinha também. Ah, sim, a exposição é do Man Ray. Eles quase não se falam. Esta ainda não é a cena final, uma vez que o final dessa peça será feliz]
---
B (se aproxima de A) - ...
A (se afasta de B) - ...
B (se aproxima outra vez de A) - ...
A (se afasta outra vez de B) - ...
B (é insistente e se aproxima outra vez de A) - ...
A (se afasta outra vez de B) - ...
B (pensa em desistir) - ...
A (não quer que B desista) - ...
B (pensa: não vou desistir!) - ...
A (pensa: ele não vai desistir!) - ...
B (se aproxima mais uma vez de A) - ...
A (deixa B se aproximar) - ...
A e B estão abraçados - ...
[continua...]
---
Jenny Holzer mais uma vez: ALL THINGS ARE DELICATELY INTERCONNECTED.

Sábado, Abril 21, 2007

Um tipo diferente de azul


Um tipo de azul. Um tipo diferente de azul. Miles elétrico. [The Complete Jack Johnson Sessions (o disco da foto) tem seis horas e quase 10 minutos de duração]. Um tipo diferente de percepção?! Como se não levasse a lugar algum, nenhum?! Enfim, um tipo diferente de Miles Davis.
Como se o som fosse uma curva.
A banda é a seguinte: Miles Davis: Trumpet; John McLaughlin, Sonny Sharrock: Guitar; Michael Henderson, Dave Holland, Ron Carter, Gene Perla: Bass; Billy Cobham, Jack De Johnette: Drums; Chick Corea, Keith Jarrett, Herbie Hancock: Keyboards; Steve Grossman, Wayne Shorter: Saxophone; Bennie Maupin: Bass Clarinet; Airto: Percussion; Hermeto Pascoal: Vocals. Que bonde hein?!
---
Como se o som fosse uma curva?!

Sexta-feira, Abril 20, 2007

20/04/2007


Gonçalo M. Tavares

09.

Gostaria que ela voltasse.

Quando ela está eu sofro muito,
mas também danço muito.
Sofro 50 e danço 150.
Fico a ganhar 100 de dança.
Por isso é que quero que ela volte.

As mulheres são bonitas, mas ela ainda é mais bonita
que as mulheres.
Tem pés de bailarina mesmo quando está sentada.
E é muito difícil ter-se pés de bailarina quando
se está sentada.
Quando ela dorme parece que todo o quarto dorme.
É como se a própria cama dormisse.
É como se os móveis e os lençóis dormissem.
As paredes dormem.
As portas dormem.
As janelas dormem. Tudo dorme.
Por isso é que eu gosto tanto dela.
Gosto de olhar as coisas quando elas dormem.

Quando ela adormece, adormece o mundo e aí eu aproveito
para viajar.
Gosto de viajar quando mundo dorme
Porque assim consigo ver as coisas a respirarem naturalmente.
Só se é natural quando se dorme.
Quem acorda, acorda os instintos de sobrevivência.
É melhor andar por cima da terra quando ela dorme,
do que quando ela quer sobreviver.

Quando a Natureza dorme podemos correr à vontade pois
será impossível tropeçarmos, será impossível sermos lentos
ou demasiado rápidos.
O nosso ritmo é o certo.
Tudo vive nos seu sítio e nós observamos, acordados,
as coisas do alto.

É por isso que eu gosto dela. Dessa mulher.
É por isso que eu gostaria que ela voltasse.
Ela adormece o mundo para eu passar
e só quando eu estou em total segurança é que ela acorda.
É estranho: ela protege-me quando dorme.
Protege-me quando dorme.

[do livro Ou o homem é tonto ou ele é mulher, Casa da Palavra, 2005 + foto de Chet Baker, a trilha sonora de hoje]

Quarta-feira, Abril 18, 2007

2 to go


Faltam dois dias para sexta-feira, uma vez que hoje é quarta-feira. Esse aí da foto é Paul Simonon (ex-baixista do The Clash, atual baixista do The Good, The Bad & The Queen). A trilha sonora destes dias: The Clash. E uma das frases destes dias: London burning!!!
---
Ah, e uma outra frase, agora da Jenny Holzer (que meu inglês de boteco me permite ler): ALL THINGS ARE DELICATELY INTERCONNECTED.
---
Então, é isso!!!

Sábado, Abril 14, 2007

Amy Winehouse, Rehab

They tried to make me go to rehab but i said 'no, no, no'
Yes, I've been black but when i come back you'll know know know
I ain't got the time and if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to rehab but i won't go go go

Sexta-feira, Abril 13, 2007

Uma semana na Jamaica, cena 4


[A e B ainda estão num museu, ou numa galeria, vendo um exposição do Man Ray (agora isto é mais que certo). Estão sentados num desses bancos de museu, ou de galeria. No banco ao lado, D (um senhor de idade) acorda E (um senhor de idade também) com uma "jornalada" na cabeça. A e B acham graça da situação. E começam uma conversa, que não tem relação nenhuma com este ocorrido]
---
B - Estou com um parafuso a menos...
A- Humm...
B - Por que "humm"?!
A (quase ficando com raiva) - Pare de perguntar, por favor!!!
B (quase ficando triste) - Tá bom....
A - Eu achei seu parafuso, arrisquei minha vida por ele...
B (bem feliz) - Como assim?! Sério?!
A - Serinho!!!
B (suspira) - ....
A (fala baixo) - Eu perdi a linha....
B (num tom parecido) - Eu achei a linha, cheguei até a enrolá-la....
A - E....
B - Mas perdi também... me desculpe....
A - Tá certo, é melhor que seja assim mesmo...
B - É, muito melhor...
A - Pelo menos temos o parafuso...
B - Sim, o parafuso, temos o parafuso....
A e B (ao mesmo tempo) - E o cofre também!!!
---
[continua...]

Quinta-feira, Abril 12, 2007

Clint Eastwood, Gorillaz

A trilha sonora da continuação do fim do mundo!

Segunda-feira, Abril 09, 2007

Outro conto do Steve Martin


Escrever é fácil

Basta morar na Califórnia. Ou você consegue imaginar sete anões felizes na úmida Czechoslováquia?
---
Entre todas as artes, escrever é a maneira mais fácil, indolor e alegre de passar o tempo. Escrevo estas palavras, por exemplo, confortavelmente sentado em meu jardim de rosas, digitando no meu computador novo. Cada rosa representa uma história, de maneira que nunca me falta o que digitar. Basta olhar bem no coração de cada rosa, ler a sua história e depois escrevê-la. Eu poderia estar digitando kjfliu joew.mv jiw, e extrair disso prazer igual ao da digitação de palavras que fazem sentido, simplesmente porque adoro o movimento dos meus dedos nas teclas. É verdade que a angústia às vezes visita o escritor. Nesses momentos, paro de escrever e saio para relaxar e tomo um café no meu restaurante predileto, sabendo que as palavras podem ser modificadas, repensadas, manipuladas e, em último caso, negadas. Eis um luxo que os pintores não têm. Se eles saírem para tomar um café, a tinta seca e endurece.
---
O CENÁRIO
---
Gostaria de recomendar que todos os escritores morassem na Califórnia, porque aqui, entre um momento e outro em que fitamos o coração das rosas, sempre podemos contemplar o tranqüilizante céu azul. Tenho pena dos escritores – alguns deles bem famosos – que vivem em lugares como a Sul-América e a Czechoslováquia, onde imagino que seja muito úmido. É fácil identificar esses escritores. Seus livros quase sempre transbordam de doença e negatividade. Se você vai escrever sobre alguma doença, eu diria que o melhor lugar para isso é a Califórnia. O nanismo nunca teve muita graça, mas basta ver no que resultou quando virou tema na Califórnia: sete anões felizes. Alguém consegue imaginar sete anões na Tchecoslováquia? Na melhor das hipóteses, teríamos sete anões melancólicos – sete anões melancólicos e nenhuma vaga especial para deficientes no estacionamento.
---
O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA: POR QUE NÃO É UM BOM TÍTULO
---
Admito que O amor nos tempos do... é um ótimo título, até certo ponto. Você começa a ler e se sente feliz, porque ele fala de amor. E gosto da maneira como chega a palavra tempo – a sensação é boa, muito boa. Mas então aparece o cólera, tão mórbido! Até aí eu estava feliz. Por que não O amor nos tempos dos pássaros azuis, tão azuis? O amor nos tempos das feridas e das pústulas purulentas deve ter sido uma primeira versão que o autor usou, enquanto escrevia o livro numa casa infestada de ratos, usando uma Smith Corona antiga. Esse romancista, seja quem for, bem que poderia lucrar com umas duas semanas de horário de verão na costa do Pacífico.
---
UMA PEQUENA EXPERIÊNCIA
---
Selecionei o trecho abaixo, que só pode ter sido escrito em algum lugar muito deprimente, e tentei reescrevê-lo à luz da influência solar da Califórnia:
A maioria das pessoas se engana com duas crenças: acreditam na memória eterna (de pessoas, coisas, feitos, nações) e na reparação (de feitos, erros, pecados, enganos). As duas crenças são falsas. Na verdade, o oposto é que é real: tudo será esquecido, e nada será reparado. – Milan Kundera.
Sentado no meu jardim, vendo as abelhas pairando de flor em flor, deixei que o parágrafo acima se filtrasse através da minha mente. E o que emergiu foi o seguinte Parágrafo Novo:
Sinto-me lindo
Muito lindo
Sinto-me lindo, brilhante e bom.
Kundera foi verboso demais. Às vezes, a tecla "delete" é a melhor amiga do escritor.
---
BLOQUEIO CRIATIVO: UM MITO
---
O bloqueio criativo é um termo fantasioso inventado por gente que gosta de se queixar, só para ter uma boa desculpa para beber álcool. Claro que, às vezes, o escritor pode ficar entalado por algum tempo, mas quando isso acontece com um autor de peso – por exemplo um Sócrates, ou um Rodman – ele simplesmente arranja alguém para lhe contar a história, que será publicada com o adendo "conforme contada a". A alternativa é apresentar o produto como "conforme ouvido de", o que lhe dá todo o crédito. O outro truque, ao qual costumo recorrer sempre que sofro um entupimento momentâneo, é virtualmente infalível. Tenho o maior prazer em revelá-lo aqui. Basta abrir algum romance já publicado e encontrar uma frase que você ache ótima. Copie a frase no seu original. O normal é essa frase levar a outra, e dali a pouco as suas idéias começarem a fluir. Se não funcionar, basta copiar a frase seguinte do romance. Você pode usar com segurança até três frases de uma obra alheia – a menos que o autor seja seu amigo, caso em que não deve passar de duas. A probabilidade de você ser descoberto é muito pequena. E, mesmo que alguém descubra, você não vai cumprir tempo de cadeia.
---
UMA DEMONSTRAÇÃO DE COMO SE ESCREVE NA REALIDADE
---
É fácil falar sobre como se escreve, e mais fácil ainda escrever. Preste atenção:
Chamem-me Ishmael. Fazia frio, muito frio aqui nas montanhas do Kilimanjaro. Ouvi sinos. Eles dobravam. E eu sabia exatamente por quem os sinos dobravam. Era por mim, Ishmael Twist. [Nota do Autor: Agora fiquei entalado. Vou até uma rosa e olho no fundo do seu coração.] Isso mesmo, Ishmael Twist.
Eis um exemplo do que eu chamo de escrita "pura", que ocorre quando não existe a menor possibilidade de transformação em roteiro cinematográfico. A escrita pura é a mais gratificante de todas, porque é constantemente acompanhada por uma voz que nos repete, "Por que estou escrevendo isso?" E então, só então, o escritor pode almejar a sua realização mais alta: ouvir a voz do leitor enunciando a sua pergunta complementar, "Por que estou lendo isso?".
---
(Última frase escrita por Steve Martin conforme ouvida de Cindy Adams.)
---
[publicado na revista Piauí, 07, abril]

Sexta-feira, Abril 06, 2007

Algumas imagens!

Disco, livro e mini-cena


A trilha sonora da "continuação do fim do mundo" é o disco The Good, The Bad & The Queen (foto), projeto liderado por Damon Albarn. Na revista Bravo de março: "The Good, the Bad and the Queen traz Albarn em sua face mais melancólica e sombria. Tudo começou na Nigéria, onde ele havia se encontrado com Tony Allen, lenda do afrobeat, baterista do finado Fela Kuti. Juntos fizeram algumas músicas num esquema de estúdio caseiro. Foi aí que Damon resolveu ligar para outra lenda: Paul Simonon, ex-baixista do Clash, até então recluso em seu ateliê de pintor. A idéia era adicionar o som tipicamente grave do dub às paisagens noturnas, cinematográficas, algo desoladas das novas composições. Completando esse aparente supergrupo, o guitarrista do Verve Simon Tong trouxe seus acordes, ora sujos, ora nítidos, ao projeto".
---
Um acontecimento na vida de um pintor-viajante, romance de César Aira, começa assim: "HOUVE POUCOS PINTORES-VIAJANTES realmente bons no Ocidente. O melhor deles, do qual temos informações e farta documentação, foi o grande Rugendas, que esteve duas vezes na Argentina. A segunda viagem, feita em 1847, forneceu-lhe a oportunidade de registrar as paisagens e os tipos da região do rio da Prata com tanta profusão que se calcula que um total de duzentos quadros ficaram em mãos de particulares aqui neste rincão do mundo — e serviu para desmentir seu amigo e admirador, Humboldt, ou melhor, desmentir uma interpretação simplista da teoria de Humboldt, que quis restringir o talento do pintor aos excessos orográficos e botânicos do Novo Mundo. Mas o desmentido, na realidade, havia sido anunciado dez anos antes, na sua curta e dramática primeira visita, interrompida por um estranho episódio que marcou sua vida de modo irreversível".
---
Li o romance de Aira ao som de The Good, The Bad & The Queen.
---
Uma semana na Jamaica, mini-cena um
[A e B não estão mais numa galeria, ou num museu (vendo uma exposição de Man Ray, ou uma retrospectiva dos surrealistas). Eles encontraram uma rua que parece tranquila - estão conversando. Mas D, um senhor de mais de setenta anos, aparece do nada]
---
D - Podem ficar aí, vocês não atrapalham não.
A e B (espantados e ao mesmo tempo) - Ah, como assim?!
D (quase irritado) - Fiquem aí, vocês não me atrapalham!
A e B - Ah sim, mas ninguém atrapalha mais não.
---
Boa Páscoa, até segunda!

Quarta-feira, Abril 04, 2007

Blur, Charmless Man

Segunda-feira, Abril 02, 2007

Um conto de Steve Martin


Picasso divulga "Dama com leque"

"Espero que meus fãs entendam essa nova fase"
---
The entertainment channel: Antes de mais nada, nós gostamos muito de "Dama com leque".
picasso: Obrigado. As pessoas parecem ter se empolgado com o quadro, e a crítica foi positiva.
e.c.: Como foi a sensação de pintar Dama com leque?
picasso: Muito, muito empolgante. Me empolguei com a idéia de pintá-lo e de trabalhar com pessoas tão empolgantes, o pessoal das tintas, o cara das telas…
e.c.: Puxa, então foi um projeto empolgante.
picasso: Foi, eu fiquei realmente empolgado. Às vezes mais, às vezes menos…
e.c.: Mas você passou o tempo todo empolgado?
picasso: Com certeza, o tempo todo. Você acertou na lata.
e.c.: E a modelo?
picasso: É mesmo, eu quase esqueci. Que hilário! Admiro as poses dela há anos e finalmente tive a chance de trabalhar com ela. Foi maravilhoso ir pro ateliê todos os dias.
e.c.: Conte para os telespectadores como ela é.
picasso: Ah, ela é simples, sem afetação. Podia ter o rei na barriga, mas não tem.
e.c.: E rolou um clima?
picasso: Rapaz, que entrevista difícil! (risos) Na verdade, somos bons amigos, mas não passa disso. Eu tenho regras claras sobre namorar minhas modelos.
e.c.: Em entrevista ao nosso programa, ela disse: "Adorei trabalhar com Picasso. Nós demos muitas risadas". Sobre o que vocês riam? Algum incidente engraçado?
picasso: Deixa eu ver. Hmm. Ah, sim. Um dia, eu disse que queria pintá-la nua. Nossa, você precisava ter visto a cara dela. É claro que logo em seguida eu disse que tava só brincando.
e.c.: Mas que hilário!
picasso: Foi muito, muito engraçado.
e.c.: "Dama com leque" é muito diferente dos seus trabalhos anteriores. Você acha que os seus fãs irão aprovar?
picasso: Bom, eu realmente quis expandir meus horizontes, espero que meus fãs entendam esta nova fase.
e.c.: Muitos outros quadros foram lançados recentemente. Matisse apresentou o Retrato com risca verde, e Vlaminck pintou uma boa natureza morta. Você se preocupa com a concorrência
picasso: Olha, tenho certeza de que o quadro de Matisse deve ser muito, mas muito fofo. Quanto a Vlaminck, ele é um idiota.
e.c.: Uau! Vamos, não esconda nada — diga ao espectador tudo o que você pensa!(risos)
e.c.: Pablo?
picasso: Diga.
e.c.: Por que um leque?
picasso: Puxa, todo mundo me faz essa pergunta. Acho que é porque eu não quis chamar o quadro de "Dama com banana". Brincadeira.
e.c.: Puxa, mas que hilário!
picasso: Falando sério, o leque foi escolhido por ser uma alegoria da feminilidade, porque ele equilibra a composição do quadro e porque eu arranjei a mão da modelo na clássica posição religiosa de "A virgem das rochas", de Leonardo, com a diferença de que eu queria vê-la segurando um objeto profano.
e.c.: Entendi. (Pausa) Quais são os seus próximos projetos?
picasso: Bom, gostaria de fazer pinturas menos sérias. "Dama com leque" é, na verdade, uma obra profunda, e eu gostariade ampliar um pouco mais e mostrar que não sou um pintor de um quadro só.
e.c.: Muito obrigado, Pablo Picasso. (Virando para a câmera) "Dama com leque" ficará exposto na National Gallery pelos próximos mil anos, não perca. Pablo, por favor, você pode olhar para a câmera e dizer: "Oi, eu sou Pablo Picasso, você está assistindo o Entertainment Channel!"
picasso: Claro. Posso mandar um beijo para a Gertrude Stein?
---
[Publicado na Revista Piauí/dezembro 06]