Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

(ela disse alguma coisa dançando)

Na última entrevista, Britney disse coisas muito interessantes. Selecionei passagens da entrevista. Espero que reflitam (ou se divirtam):
-
"Um homem escala uma montanha porque ela está ali. Um artista faz uma obra de arte porque ela não está ali".
-
"Arte é o que fazemos. Cultura é o que nos fazem a nós".
-
"Os meus trabalhos são sobre nada e ilustram no sentido mais literal o vazio e a falta de conteúdo".
-
"As partes individuais de um sistema não são partes por si só, mas são relevantes na forma como são usadas na lógica fechada do todo"
-
"Os meus trabalhos são idéias que operam entre o chão e o teto".
-
"A vida não dura, a arte não dura. Não importa... Penso que é tanto um conflito artístico como de vida".
-
"A primeira batalha que quase todo artista deve travar é a de se libertar da velha arte européia".
---
agefqtj-

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

(a filo_sofia das ru_as ruas)

Cat Power moraria numa rua chamada Cat Stevens. Eu moraria numa rua chamada Gilles Deleuze. Ou numa rua chamada Roland Barthes. Cat Power acaba de lançar um EP chamado Dark end of street. Música do dia: Baby come back (Player).
---
Roland Barthes em Dez razões para escrever diz isto:
-
Como escrever não é uma atividade normativa nem científica, não posso dizer por que nem para que se escrever. Posso apenas enumerar as razões pelas quais imagino escrever:
-
1. por necessidade de prazer que, como se sabe, não deixa de ter alguma relação com o encantamento erótico;
2. porque a escrita descentra a fala, o indivíduo, a pessoa, realiza um trabalho cuja origem é indiscernível;
3. para pôr em prática um "dom", satisfazer uma atividade instintiva, marcar uma diferença;
4. para ser reconhecido, gratificado, amado, contestado, constatado;
5. para cumprir tarefas ideológicas ou contra-ideológicas;
6. para obedecer às injunções de uma tipologia secreta, de uma distribuição guerreira, de uma avaliação permanente;
7. para contribuir para fissurar o sistema simbólico de nossa sociedade;
9. para produzir sentidos novos, ou seja, forças novas, apoderar-me das cosias de um modo novo, abalar e modificar a subjugação dos sentidos;
10. finalmente, como resultado da multiplicidade e da contradição deliberadas dessas razões, para burlar a idéia, o ídolo, o fetiche da Determinação Única, da Causa (causalidade e "boa causa") e credenciar assim o valor superior de um atividade pluralista, sem causalidade, finalidade nem generalidade, como o é o próprio texto.
---
Para terminar, uma definição de poeta e outra de prosa, ambas do Dicionário de Idéias feitas: Poeta - sinônimo nobre de pateta, sonhador. Prosa - Mais fácil do que fazer versos. É isso, até breve!!!
---
agefqtj-

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

(rua nelson_rodrigues ou contar_dinheiro)

Rua Nelson Rodrigues (bairro Ideal, Ipatinga-MG). Uma rua bonitinha, mas ordinária. E Nelson Rodrigues, porque Tuninho, persongam de A falecida, conta dinheiro. E contar dinheiro é bom, porque dinheiro é dinheiro, não importa:
-
(Tuninho, de cócoras, põe o dinheiro no chão e começa a contar.)
-
Tuninho - Três, quatro, cinco mil cruzeiros... Sabe que eu estou bolando uma outra idéia... Seis, sete, oito, nove, dez mil cruzeiros.. Uma idéia... Genial...
-
(Tuninho arruma e põe os primeiros dez mil cruzeiros num bolso.)
Tuninho - Onze, 12, 13... Que tal se a gente fizesse uma missa de sétimo dia, bacana?... 14, 15, 16... Missa de interromper o trânsito?... 17, 18, 19, vinte...
-
(Tuninho põe os outros dez mil cruzeiros no bolso.)
Tuninho - Podia ser uma missa de três padres e dez coroinhas... 21, 22, 23, 24, 25, 26... Com música... trinta mil cruzeiros... Uma missa abafante... O resto está certo!...
-
(Em cada bolso, Tuninho põe os dez mil cruzeiros.)
---
Em cada bolso, coloco dez mil doláres (mentira). Em cada bolso, coloco 2 reais (verdade), porque assim pago as passagens de ida e de volta. E porque dinheiro é dinheiro, não importa (verdade). Prometi Ali Smith (verdade), e seleciono, depois de muito pensar (mentira), uma passagem pequena do livro Por acaso (verdade):
-
Ele fez.
Eles fizeram.
Aí ela fez.
Ela se matou.
---
agefqtj-

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

(heiner müller_uma vez eu tive um camarada)

Heiner Müller, sai na rua!!! Por que ele?! Porque Fabiana Kent Paiva traduziu um mini-peça dele, que eu acho que não foi publicada aqui. Eu também participei, mas participei digitando a peça. Uma vez eu tive um camarada está incluída em Theatremachine. A pontuação é estranha mesmo: não há vírgulas, nem pontos de interrogação (como em algumas peças de Gertrude Stein). Não vou falar mais nada. Com vocês, Heiner Müller:
-
Uma vez eu tive um camarada
-
Quatro soldados, vento e neve.
-
1 Soldados onde foi o inimigo.
2 Para dentro da sua barriga.
3 Os montes de neve os jogaram longe um por um.
4 O inimigo está em todos os lugares.
2 Quando você está morrendo de fome só existe um inimigo.
4 Você não está me dizendo nada de novo.
2 Por quatro semanas tudo o que eu tenho ouvido é a minha barriga reclamar.
3 Eu daria meu reino por um osso.
4 Nós estamos morrendo de fome pelo nosso reino.
2 O que é essa merda toda de nosso reino.
Eu aposto uma moeda.
Só há nós quatro.
4 Está sobrando um.
2 Já chega.
4 Ok Eu vou dizer Nós somos amigos Está bom.
2 Sim um come o que o outro caga.
4 Três barrigas cheias ou quatro barrigas vazias. Qual.
A droga da lealdade é a marca da honra.
3 Um por todos
2 A questão é quem.
-
2, 3, 4 apontam seus rifles um para o outro.
-
1 Soldados. Meu rifle. Está muito...
4 Me dê Eu seguro para você.
-
4 atira em 1.
Ele era uma ameaça à vitória.
-
2 Estou feliz porque não tive que decidir.
3 Ele não podia nem ficar em pé mais.
4 Agora ele vai nos deixar mais fortes.
-
2, 3 e 4 se reúnem em torno do corpo de 1. Eles cantam enquanto o comem.
---
Exatamente como sempre eu prometi algumas coisas, mas vou cumprir: Ali Smith, Miles Davis, mais ruas famosas e, quem sabe, Gertrude Stein e poemas reescritos. Exatamente como sempre: e o rigor?! Ah, clique na imagem!!!
---
agefqtj-

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

(rua pablo_picasso)

Fotografia da rua Pablo Picasso (Ipatinga-MG). Eu moraria numa rua chamada Pablo Picasso. Mas moraria também numa rua chamada Andy Warhol, John Cage, Miles Davis, Susan Sontag, Heiner Muller, Gertrude Stein. Eu moraria numa rua chamada Yoko Ono. Eu moraria numa rua chamada Franklin. Você moraria numa rua chamada Ali Smith?!
---
Uma passagem de Um retrato acabado de Picasso (Se eu lhe contasse) de Gertrude Stein, na tradução de Augusto de Campos, na edição, bem rara, da Noa-Noa (presente de Marília):
-
Exatamente eles vão bem.
Primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem também.
Primeiro exatamente.
E primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem.
E primeiro exatamente e exatamente.
E eles vão bem.
E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem.
O primeiro exatamente.
E eles vão bem.
O primeiro exatamente.
De primeiro exatamente.
Primeiro como exatamante.
De primeiro como exatamente.
Presentemente.
Como presentemente.
---
Para esta semana: 50 anos de Kind of Blue, mais fotografias de ruas, poemas reescritos, passagens de Ali Smith, mais Gertrude Stein e coisas afins. Exatamente como sempre!!!
---
agefqtj-

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

(rua machado de assis_dois)

Escrevo da rua Kate Moss (mentira). Escrevo da rua Machado de Assis (verdade). Escrevo sem vontade de escrever (verdade), mas com uma vontade muito grande de mudar o mundo (mentira). Com uma vontade muito grande de ficar rico (verdade). Não tenho rigor, espero que os amigos tenham (verdade).
---
Um amigo, Carlito, me enviou As aventuras do anão suicida do português Luís Januário (verdade). 3 delas então:
-
SEGUNDA DE MANHÃ
-
Tudo se repete. A água, a lâmina, a promessa dos cremes da manhã, as pessoas que descem a avenida, o cão castrado do senhor Gerardo, bom-dia senhor Gerardo, o artista conduzido pela mulher ao volante, outra de dedo levantado, as pávidas crianças nas cadeirinhas certificadas, bom-dia senhor Simões, o dedo na fenda, o teu nome oficial assinalando a primeira humilhação, a chave na fechadura, os mails da noite, a bata, bom-dia dona Laurinha, bom-dia menina Fátima. Lá fora chove e o céu encoberto. Começa a semana e ninguém, compaixão nenhuma, segura o anão suicida.
-
TERÇA
-
Tudo se repete. A água, a lâmina, a promessa dos cremes, as pessoas que descem a avenida, o cão de cabeça levantada, bom-dia senhor Gerardo, o artista ao volante, as crianças atentas nas cadeirinhas, bom-dia, bom dia. Bate-te nos neurónios em espelho a marcha coleante das professoras do 2º ciclo, os cabelos tão lisos da que foi florista, os miúdos a atravessar o pão da manhã, a menina Cloé, a rapariga da lavandaria, o dedo na fenda, o teu nome oficial assinalando a humilhação diária, a chave na fechadura, os mails da noite, a bata, bom-dia dona Laurinha, bom-dia, não vale a pena arrumar. É terça-feira e o céu claro de Novembro segura a mão do anão suicida.
-
SEM TÍTULO
-
A lâmina na cara, a água, os golos do Benfica, o Cristiano Ronaldo não-sei-quê, detesto estas glórias pátrias, detesto a pátria, li que o rei dom Duarte se achava, ele o PCP, os únicos e verdadeiros patriotas, o branco limpo do gelo nas ruas, as raparigas na passadeira do antigo liceu, tão orgulhosas, ignorando o frio, o cão castrado do senhor Gerardo, o dedo na fenda, o teu nome oficial, a chave na fechadura, os mails acumulados no fim-de-semana, a bata. Começa outra semana e de novo uma torção das vísceras a que chamam angústia ameaça o anão suicida.
---
Fim (mentira)
---
agefqtj-

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

(rua machado de assis_um)

Outra fotografia do norte-americano Andrew Bush, mas não há nenhum motivo para ela aparecer aqui hoje (mentira).
---
De volta, depois de muitos dias sem escrever nada, porque não tinha nada para escrever (mentira). E noutra versão: de volta, depois de muitos dias sem escrever nada, porque estava com muita preguiça de pensar em alguma coisa para escrever aqui (verdade).
---
Escrevo da rua Machado de Assis, portanto não estou na minha casa (verdade). Depois de muito pensar (mentira), selecionei esta passagem da Gertrude Stein, do livro Autobiografia de Alice B. Toklas. nela, G.S. explica sua poética: "Em sua obra, Gertrude Stein sempre esteve dominada por uma paixão intelectual pela descrição exata das realidades interior e exterior. Alcançou uma simplificação por meio desta concentração e, como conseqüência, a destruição da emoção associativa na poesia e na prosa. Ela sabe que beleza, música, decoração, o resultado da emoção nunca deveriam ser a causa, nem mesmo os eventos deveriam ser a causa da emoção, nem a emoção em si ser a causa da poesia ou da prosa. Elas deveriam consistir numa reprodução exata seja de uma realidade interior, seja de uma realidade exterior".
---
Isto não é uma fábula (verdade): uma sardinha consegue ficar numa lata com duas ou mais sardinhas e não reclama de nada porque ela não tem cabeça, ou noutra versão: porque ela está morta. Não estou morto: tenho cabeça, logo reclamo.
---
Fim (mentira).
---
agefqtj-