
Escrevo da rua
Kate Moss (mentira). Escrevo da rua
Machado de Assis (verdade). Escrevo sem vontade de escrever (verdade), mas com uma vontade muito grande de mudar o mundo (mentira). Com uma vontade muito grande de ficar rico (verdade). Não tenho rigor, espero que os amigos tenham (verdade).
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Um amigo, Carlito, me enviou As aventuras do anão suicida do português Luís Januário (verdade). 3 delas então:
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SEGUNDA DE MANHÃ
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Tudo se repete. A água, a lâmina, a promessa dos cremes da manhã, as pessoas que descem a avenida, o cão castrado do senhor Gerardo, bom-dia senhor Gerardo, o artista conduzido pela mulher ao volante, outra de dedo levantado, as pávidas crianças nas cadeirinhas certificadas, bom-dia senhor Simões, o dedo na fenda, o teu nome oficial assinalando a primeira humilhação, a chave na fechadura, os mails da noite, a bata, bom-dia dona Laurinha, bom-dia menina Fátima. Lá fora chove e o céu encoberto. Começa a semana e ninguém, compaixão nenhuma, segura o anão suicida.
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TERÇA
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Tudo se repete. A água, a lâmina, a promessa dos cremes, as pessoas que descem a avenida, o cão de cabeça levantada, bom-dia senhor Gerardo, o artista ao volante, as crianças atentas nas cadeirinhas, bom-dia, bom dia. Bate-te nos neurónios em espelho a marcha coleante das professoras do 2º ciclo, os cabelos tão lisos da que foi florista, os miúdos a atravessar o pão da manhã, a menina Cloé, a rapariga da lavandaria, o dedo na fenda, o teu nome oficial assinalando a humilhação diária, a chave na fechadura, os mails da noite, a bata, bom-dia dona Laurinha, bom-dia, não vale a pena arrumar. É terça-feira e o céu claro de Novembro segura a mão do anão suicida.
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SEM TÍTULO
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A lâmina na cara, a água, os golos do Benfica, o Cristiano Ronaldo não-sei-quê, detesto estas glórias pátrias, detesto a pátria, li que o rei dom Duarte se achava, ele o PCP, os únicos e verdadeiros patriotas, o branco limpo do gelo nas ruas, as raparigas na passadeira do antigo liceu, tão orgulhosas, ignorando o frio, o cão castrado do senhor Gerardo, o dedo na fenda, o teu nome oficial, a chave na fechadura, os mails acumulados no fim-de-semana, a bata. Começa outra semana e de novo uma torção das vísceras a que chamam angústia ameaça o anão suicida.
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Fim (mentira)
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